ESTREIA-"Tarde Demais" mostra drama dos pais de serial killer

quinta-feira, 3 de novembro de 2011 13:32 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Premiado pela Federação Internacional dos Críticos de Cinema no Festival de Toronto, o drama "Tarde Demais" ressuscita um persistente fantasma norte-americano: os massacres em massa promovidos por atiradores em escolas, que foi retratado em filmes vigorosos como "Tiros em Columbine", de Michael Moore, e "Elefante", de Gus Van Sant.

Também faz lembrar um dramático episódio real no Rio de Janeiro, em abril passado, na Escola Municipal Tasso da Silveira, onde morreram 12 crianças.

Em "Tarde Demais", o diretor de primeira viagem Shawn Ku, também corroteirista -- ao lado de Michael Armsbruster --, aborda um ângulo diferente. Coloca em primeiro plano o dia seguinte de uma matança numa universidade, seguindo o cotidiano dos pais do assassino, o jovem Sammy (Kyle Gallner), que também se suicidou.

Estes pais são um casal de classe média alta, Bill (Michael Sheen, de "Meia-Noite em Paris") e Kate (Maria Bello), que experimentam o inferno depois do ato violento e inexplicável de seu único filho -- que lhes telefonou na noite anterior aos crimes mas não emitiu sinais de alerta suficientes para os pais. Ou assim acreditam eles, a princípio. Nos dias que seguem, a dúvida vai instalar-se e eles descerão degrau a degrau uma espiral de emoções desencontradas, em que sua possível culpa surgirá como uma das possibilidades.

Kate e Bill veem-se ilhados em casa, assediados por repórteres de todas as maneiras. Não podem sair nem atender ao telefone. Os carros das equipes de reportagem fecham todas as suas saídas. Na mídia, o noticiário sobre o filho ocupa todos os canais, jornais, rádios, o tempo todo.

Finalmente, eles escapam ao cerco numa madrugada, buscando refúgio na casa do irmão de Kate, Eric (Alan Tudyk) e sua mulher, Trish (Moon Bloodgood). Aos poucos, o casal tenta reconstituir uma vida que antes já tinha seus problemas -- como o visível esfacelamento do casamento de Bill e Kate, que nada tinha a ver com Sammy.

Habilmente, o filme reconstitui, com precisão quase documental mas sem perder de vista a criação de uma atmosfera emotiva, todas as estações do calvário do casal -- que não pode trabalhar, nem proteger-se completamente da exposição das imagens do filho nas emissoras de televisão, onde comentaristas levantam todo tipo de hipótese, inclusive as mais cruéis e absurdas em relação a sua família.

Outra qualidade do filme é sustentar a tensão, incorporando novas situações na luta de Bill e Kate para reencontrar uma certa normalidade, que lhes permita retomar sua vida. Nesse sentido, a história incorpora uma visão crítica da curiosidade mórbida dos falsos pretendentes de compra da casa onde morava a família.

Na pele de um funcionário de hotel, o cantor Meat Loaf torna-se um dos poucos personagens capazes de demonstrar alguma compaixão por estes pais, que a histeria coletiva parece querer punir no lugar de seu filho.   Continuação...