ESTREIA-"O Garoto da Bicicleta" retrata história de afeto

quinta-feira, 17 de novembro de 2011 12:39 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Adeptos de um cinema humanista e prestigiados por uma vasta série de prêmios, dos quais se destacam duas Palmas de Ouro em Cannes (por "Rosetta", 1999 e "A Criança", 2005), os cineastas e irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne introduzem duas mudanças em seu novo filme,"O Garoto da Bicicleta": o uso da música e a presença de uma atriz famosa no elenco, no caso, Cécile de France, sua compatriota que faz sucesso no cinema francês e acabara de filmar com o norte-americano Clint Eastwood (em "Além da Vida").

Ao ver o filme, a conclusão que salta aos olhos é que os Dardennes mudaram apenas para permanecerem os mesmos, já que "O Garoto da Bicicleta", novamente brindado em Cannes em 2011 com um Grande Prêmio do júri, é mais um cuidadoso capítulo de uma cinematografia centrada no ser humano. Se os diretores e roteiristas continuam atentos às mazelas do mundo contemporâneo, desta vez, dedicam um espaço mais generoso à bondade.

Samantha (Cécile de France) é uma cabeleireira solteira cujo destino cruza-se por acaso com o do menino Cyril (Thomas Doret), de 11 anos. Quando ele entra no consultório médico em que ela se encontra e agarra-se a ela para não ser levado de volta ao orfanato, ele fracassa, naturalmente. Mas o abraço, um verdadeiro pedido de socorro, plantou a semente de uma irresistível curiosidade em Samantha.

O pai de Cyril (Jérémie Renier, de "A Criança") pura e simplesmente o abandonou no orfanato, prometendo voltar em um mês. Mas desapareceu sem deixar pistas. No momento em que Cyril encontra Samantha, está no auge do desespero. Não consegue acreditar que o pai simplesmente o tenha deixado para trás sem nenhuma palavra. Nem que tenha vendido até sua bicicleta, como descobre depois.

Recomprando a bicicleta do novo dono, Samantha tem sua primeira intervenção na vida de Cyril, devolvendo-lhe a primeira parte de sua identidade radicalmente fraturada pela rejeição. Quando o menino lhe pede que venha buscá-lo no orfanato nos fins de semana, mesmo sem entender direito porquê, ela aceita.

Este princípio de uma maternidade opcional abre várias frentes de conflito, até porque Cyril tem sua curiosidade despertada para caminhos mais tortuosos, a partir de sua convivência com Wes (Egon di Mateo), o jovem valentão da vizinhança de Samantha.

"O Garoto da Bicicleta" fala de muitas coisas, mas de escolhas mais do que tudo. As opções de Cyril especialmente, suas consequências e desdobramentos, ainda que várias delas dependam de Samantha.

Uma grande parte dos sentimentos do filme, e do risco corrido pelos diretores, passa pelo estreante Thomas Doret, escolhido em um cuidadoso processo de seleção. Somente com o olhar, ele é capaz de transmitir boa parcela do tormento interior de seu personagem, num momento crucial de contato com sua fragilidade no mundo.

A vingança, tema visitado pelos diretores em "O Filho" (2002), retorna aqui sob uma outra forma. Mas, como sempre, dentro de uma perspectiva de rediscussão da estreiteza da lei de talião, o famoso "olho por olho, dente por dente". Se há uma preocupação inarredável do universo dos Dardennes, é uma ética possível, exercida não por super-heróis, que nunca habitam seus filmes, mas ao alcance da mão de qualquer pessoa. Às vezes, até das aparentemente improváveis.

(Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Ator Thomas Doret em coletiva de imprensa para o filme "O Garoto da Bicicleta", no Festival de Cannes, em maio. 15/05/2011      REUTERS/Vincent Kessler