ESTREIA-"Quebradeiras" retrata cotidiano de mulheres do Norte

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011 10:19 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Na apresentação de "Quebradeiras" no Festival de Brasília de 2009, onde o filme saiu com três prêmios (direção, fotografia e som), o diretor Evaldo Mocarzel pediu que a plateia desligasse seus telefones celulares e se preparasse para uma viagem sensorial. Nada mais próximo da verdade para definir esse trabalho, concluído há dois anos mas até agora inédito nos cinemas.

Durante 71 minutos, as imagens de Gustavo Hadba, a trilha sonora minimalista de Thiago Cury e Marcus Siqueira e os sons da natureza criam uma atmosfera zen em torno de um grupo de mulheres da região do Bico do Papagaio (área dos territórios do Maranhão, Tocantins e Pará) que extraem das palmeiras de babaçu o fruto de seu sustento. Usam a palha das folhas para a confecção de cestos, a casca do coco para produzir carvão e a castanha para a produção de azeite e sabão.

Nesse universo feminino por excelência - os homens são vistos apenas nas rodas de danças e celebrações religiosas -, acompanhamos quase em tempo real suas atividades cotidianas.

Ouvimos o farfalhar das folhas ao vento quando elas caminham na floresta em busca dos cocos; o rumor das águas dos regatos; o baque dos porretes contra a casca do fruto, pousado na lâmina de um machado, para a retirada da castanha branca; e o ranger das cordas da rede quando descansam no final da jornada de trabalho. É uma verdadeira sinfonia de imagens que narram a alegria do despertar e o cansaço de um dia de trabalho.

Ao contrário de seus filmes mais conhecidos - "À Margem da Imagem" (2001), "À margem do Concreto" (2005) e "À Margem do Lixo" (2008) - em "Quebradeiras", Mocarzel rompe com as palavras, que estão presentes apenas nos cantos religiosos e de trabalho, o lindô, a mangaba, o reisado e as ladainhas. Não há entrevistas, apenas a representação de seu dia-a-dia.

O cineasta fluminense diz que se inspirou no experimentalismo dos colegas mineiros Cao Guimarães, Pablo Lobato, Helvécio Marins e Marília Rocha. Mas não seria exagero identificar também o olhar de Guimarães Rosa naquele ambiente que, muito distante da empoeirada Cordisburgo, vê na floresta o tempo também congelado e os corpos humanos se confundindo com o ambiente.

Toda invenção humana, fruto do desenvolvimento tecnológico, está ausente desse cotidiano. Sabemos que existe porque seus símbolos são vistos rapidamente na tela, como uma motocicleta em movimento, um ventilador num canto da sala e um aparelho de TV desligado. Fora isso é a marcha diária na floresta, o banho no rio, os cestos pesados de castanhas e um bastão de batom que, diante do espelho, colore a realidade.

(Por Luiz Vita do Cineweb)

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