ESTREIA-Panahi desafia proibição de filmar em "Isto Não É Filme"

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011 10:26 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Apesar de todo o cerceamento que lhe vem sendo imposto pelo governo iraniano, o cineasta Jafar Panahi conseguiu, no começo de 2011, romper o círculo de silêncio com m novo filme, ironicamente chamado "Isto Não É um Filme" - um engenhoso título que ao mesmo tempo parodia a famosa obra do pintor surrealista René Magritte ("Ceci n'Est Pas Une Pipe" ("Isso Não É um Cachimbo"), bem como ironiza sua própria condição.

Um filme de guerrilha, autodocumentário, feito com a cumplicidade indispensável de um colega e compatriota, o codiretor Mojtaba Mirtahmasb, também preso e acusado de "espionagem" no Irã. O filme estreia no fim de semana apenas em São Paulo.

Simples até a medula, este manifesto visual saiu do Irã clandestinamente - num pendrive escondido num bolo - em maio passado, rumo a Cannes, o primeiro de uma série de festivais que o acolheram pelo mundo afora. Retrata o cotidiano solitário e claustrofóbico do diretor de "O Balão Branco", "O Círculo" (Leão de Ouro em Veneza), "Ouro Carmim" e "Fora de Jogo".

Proibido de sair de seu apartamento pelo estado de prisão domiciliar e desfrutando da companhia insólita de Igi, o iguana de sua filha, Panahi conversa com o colega que o filma, com parentes, amigos e com a advogada, pelo telefone - procurando saber suas perspectivas no apelo que fez a um tribunal para suspender sua sentença. Ele foi condenado a seis anos de prisão, mais 20 de proibição de filmar, escrever roteiros, falar com a imprensa e sair do país.

Dois contatos pessoais são acidentais. O primeiro, com uma vizinha que tenta convencê-lo a tomar conta de seu cachorrinho, o que acaba dando errado. O segundo, com um rapaz que veio buscar o lixo, um estudante de arte fazendo um bico e com quem o cineasta solitário puxa conversa e até dá uma pequena saída no elevador, até o pátio de entrada de seu prédio. Uma pequena e documentada transgressão ao seu cárcere privado.

O segmento mais comovente é quando Jafar tenta encenar algumas partes de um roteiro que não pode filmar. Quando ele constrói com uma fita o cenário do quarto da protagonista e descreve a situação de opressão da personagem (é uma menina que entrou na faculdade de arte mas é trancada pelos pais para não se matricular), impossível não pensar na situação do próprio diretor, condenado por "agir contra a segurança nacional" e "criar propaganda contra o regime".

Poucos meses depois do filme, em outubro, a sentença do diretor foi confirmada por um tribunal em primeira instância, restando agora como última esperança de uma reversão um apelo à Suprema Corte no Irã. Um quadro, como se sabe, com poucas esperanças no curto prazo, já que existem vários outros cineastas, jornalistas, artistas e ativistas presos naquele país, bem como alguns que procuraram o exílio, caso de Mohsen Makhmalbaf, convidado da recente Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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