ESTREIA-"Espião que Sabia Demais" volta ao tempo da Guerra Fria

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012 15:29 BRST
 

SÃO PAULO, 12 Jan (Reuters) - O período é um daqueles anos obscuros da Guerra Fria. Olhando agora para o século 20, aquele momento geopolítico parece, no mínimo, conturbado. Por isso, não importa muito bem quando se situa a trama de "O Espião que Sabia Demais".

Conhecer um pouco da Guerra Fria ajuda, mas não é condição imprescindível para acompanhar a trama intrincada que, no fundo, é uma alegoria sobre disputas de poder, regada - como todas boas histórias de espiões - a intrigas, traições e jogos duplos.

O diretor sueco Tomas Alfredson ficou conhecido pelo sensível "Deixa Ela Entrar" - filme sobre uma menina vampira que trava amizade com um garoto fraco, vítima constante de bullying. Aqui, ele volta suas lentes para outro tipo de vampiros - capazes de sugar mais do que apenas o sangue de seus inimigos, especialmente quando esses inimigos estão jogando no mesmo time.

O roteiro, assinado por Bridget O'Connor e Peter Straughan, é baseado no romance homônimo de John Le Carré que em 1979 rendera uma série de televisão inglesa que não tinha a mesma verve deste filme.

Gary Oldman - que já viveu Drácula (em "Drácula de Bram Stoker") - aqui é George Smiley, um personagem seminal da literatura do escritor, que fez sua primeira aparição na estreia de Le Carré, no começo dos anos de 1960. Só em "O Espião que Sabia Demais" o personagem alcançou o posto de protagonista, trazendo consigo não só uma bagagem emocional, como intelectual, ganhando aqui mais intensidade. No filme, ele é o centro das atenções ao desvendar uma trama complexa que começa com a sua demissão humilhante.

O chefe do serviço secreto, Control (John Hurt), manda Jim Prideaux (Mark Strong) - seu enviado quando o assunto envolve sujar as mãos - investigar quem poderá ser o infiltrado nos altos escalões da agência. Poderia ser qualquer uma das pessoas com quem eles se relacionam - todos muito simpáticos e prestativos e, de cara, suspeitos exatamente por isso.

O diretor Alfredson não está interessado no suposto glamour - graças a James Bond - que a categoria profissional exala. Aqui, o foco recai sobre as transações, sempre feitas às escondidas, entre sussurros e suspiros, pelas pessoas usando o fog londrino como o melhor esconderijo.

Ao levar para as telas um livro complexo de mais de 400 páginas, reduzido a um filme de cerca de duas horas, Alfredson faz algumas escolhas e leva a trama à sua essência, deixando para as imagens dizerem muito mais do que as palavras. O que, de início, pode parecer um filme confuso e quase inteligível, aos poucos, revela-se uma trama intrincada que desafia o público, ao lado de Smiley, a decifrá-la.

As peças do jogo de xadrez servem como uma ilustração eficiente, aliás, atribuindo a cada um dos envolvidos na investigação - infiltrados em potencial - o codinome das profissões do título original do filme, "Tinker, tailor, soldier, spy": ou seja, funileiro, alfaiate, soldado e espião.   Continuação...

 
Diretor Tomas Alfredson posa com membros do elenco (D-E) Mark Strong, Gary Oldman e Colin Firth na estreia em Los Angeles de seu filme "O Espião que Sabia Demais" em Hollywood em 6 de Dezembro de 2011. REUTERS/Fred Prouser