13 de Janeiro de 2012 / às 12:42 / 6 anos atrás

Academia afegã faz música para atenuar dor da guerra

Por Amie Ferris-Rotman

CABUL, 13 Jan (Reuters) - Um som desafinado que abrange de instrumentos de corda asiáticos às delicadas cadências de um piano clássico emana de um sobrado no centro de Cabul.

No único conservatório musical afegão, os alunos aprendem música com a esperança de que ela traga conforto contra a guerra e a pobreza, recuperando um rico legado musical interrompido por décadas de violência e repressão.

"Estamos comprometidos a construir vidas arruinadas por meio da música, por causa do seu poder curativo", disse à Reuters Ahmad Sarmast, diretor do Instituto Nacional Afegão da Música.

Trompetista de formação, ele montou o conservatório há dois anos, onde antes funcionava o departamento de música da Escola de Belas Artes, obrigada a fechar no começo da década de 1990 por causa da guerra civil que tomou conta do país após dez anos de ocupação soviética.

O austero grupo islâmico Taliban, que tomou o poder em 1996, proibiu totalmente a música, algo impensável no Afeganistão de hoje, onde bares e carros emitem a todo volume canções românticas indianas e temas de Ahmad Zahir, popular cantor afegão da década de 1970.

Mas, embora os 140 alunos em tempo integral do conservatório guardem poucas lembranças daquela época, eles ainda enfrentam dificuldades para seguir a carreira musical.

Metade dos alunos é composta de órfãos e crianças de rua, e os demais são selecionados em exames. Todos são apaixonados por música, disse Mashal Arman, professora de voz e flauta, e filha do famoso músico Hossein, cujas fotos em preto e branco enfeitam o salão da escola.

"Eles estão muito sedentos por música e arte, é fabuloso ver o país finalmente mudando", disse Arman, com um sotaque que revela sua ligação com a Suíça, para onde sua família fugiu há mais de 20 anos.

Sarmast disse que também decidiu que um terço dos alunos devem ser meninas, num país onde elas ainda enfrentam dificuldades para receber a educação básica.

Todos os alunos recebem bolsas integrais para frequentarem o conservatório, mantido pelo Ministério da Educação graças a significativas verbas estrangeiras, especialmente da Grã-Bretanha, Alemanha e Dinamarca. Os diplomas são reconhecidos internacionalmente.

"O retorno da música é uma das mais positivas mudanças no Afeganistão pós-Taliban", disse Sarmast, que estudou em Moscou e na Austrália antes de voltar em 2008 ao Afeganistão com a missão de criar o conservatório.

Sem acesso a instrumentos em casa, muitos alunos só têm a chance de praticar quando vão ao conservatório. Para Sayed Elham, 13 anos, um fã de Chopin que se destaca nos estudos do piano, a troca do teclado Casio da sua família por um piano completo - ao custo de 3.000 dólares - é um sonho distante.

"Eu quero que o governo melhore o estado da música afegã", disse ele após apresentar o "Noturno" a alguns colegas que assistiam ao seu ensaio.

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