ESTREIA-Leonardo DiCaprio vive chefão do FBI em "J. Edgar"

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012 14:37 BRST
 

SÃO PAULO, 26 Jan (Reuters) - Chamar John Edgar Hoover, o temido chefe do FBI por quase cinco décadas, pelo primeiro nome, no título da cinebiografia "J. Edgar", é apenas o primeiro indício de que o diretor Clint Eastwood se aproximou do personagem como ser humano, tornando real e acessível uma figura mítica e, não raro e com justas razões, identificado como vilão e sociopata, especialmente perante os segmento liberais da sociedade norte-americana.

Quase tanto, ou até mais do que o senador Joseph McCarthy - a quem considerava "oportunista" -, Hoover encarnou o combate sem tréguas e, muito comumente, ultrapassando os limites legais, aos comunistas e esquerdistas.

Também não se dobrou à autoridade dos oito presidentes norte-americanos a quem supostamente deveria servir. Independentemente de sua filiação partidária, todos eles e seus parentes, além de vários congressistas, figuraram num temido arquivo secreto em que Hoover colecionava o fruto da espionagem à sua intimidade, como a vida sexual de John Kennedy e da senhora Franklin Delano Roosevelt. Um arquivo cuja existência não fazia questão de lhes esconder e aumentava ainda mais seu poderio.

Contando com uma caprichada maquiagem, Leonardo DiCaprio interpreta Hoover da juventude à velhice, com uma intensidade na medida justa, o que torna sua ausência das indicações ao Oscar uma das injustiças desta edição. O roteiro, de Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por "Milk - A Voz da Igualdade"), centra-se na irresistível ascensão de seu personagem no combate ao crime, à frente da divisão de inteligência do Departamento de Justiça desde os anos 20, depois chefiando o Bureau de Investigações, que em sua gestão incorporou também a palavra "Federal".

Desde o início de sua carreira, com apenas 24 anos, Hoover exibe perícia em duas frentes com a mesma obsessão. De um lado, na necessidade de contar com um aparato volumoso, eficiente e científico - como sua insistência em contratar muitos agentes, instalar laboratórios para investigação e instituir um banco federal de impressões digitais. De outro, seu foco recai única e exclusivamente sobre aqueles que considera inimigos da democracia, como todos os esquerdistas.

Além disso, discriminava negros, mulheres ou homens que desprezassem o que considerava um bom figurino, com sapatos engraxados - que, sob sua gestão, tinham minguadas chances de entrar para os quadros do FBI.

A mesma fúria que dedicava ao combate aos gângsters dos anos 30 e ao sequestrador do bebê do aviador Charles Lindbergh - casos que o tornaram famoso, embora tenha usurpado para si um crédito que pertencia tanto ou mais a outros - ele dirigiu ao ativista negro Martin Luther King. Quando a espionagem ao pastor não rendeu qualquer escândalo que lhe permitisse chantageá-lo, Hoover não hesitou em fabricar uma carta, atribuída a um ex-auxiliar de King, para tentar manchar sua imagem pública, visando forçá-lo a recusar o prêmio Nobel da Paz. Mas Hoover, que considerava King esquerdista, teve que engolir vê-lo receber a honraria, em 1964.

Embora não seja este o seu tema principal, o filme aborda a homossexualidade escondida por Hoover, que teve uma longa ligação com um de seus subordinados, o agente Clyde Tolson (Armie Hammer, de "A Rede Social"). Os dois eram inseparáveis em festas, viagens e jantares, e Tolson herdou a casa de Hoover quando ele morreu, em 1972.

Duas mulheres são fundamentais na trajetória de Hoover. Uma delas, sua mãe (Judi Dench), decisiva influência na moldagem de um caráter agressivo e obcecado pelo sucesso - e que não admitia sua homossexualidade, como aparece numa cena de grande intensidade dramática entre os dois. A outra é sua secretária, Helen Gandy (Naomi Watts), com quem ele, ainda jovem, tenta casar-se, e que depois lhe permanece uma servidora fiel por toda a vida. Na história, foi Helen a encarregada de sumir com os temidos arquivos secretos de Hoover, que nunca foram encontrados depois de sua morte, em 1972.   Continuação...