ESTREIA-Mudo e preto-e-branco, "Artista" pode ser zebra no Oscar

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012 11:50 BRST
 

SÃO PAULO, 9 Fev (Reuters) - Numa época em que só se fala em 3D, não deixa de ser curioso que um dos filmes mais premiados ao redor do mundo e badaladíssimo na corrida ao Oscar deste ano, como vice-campeão em indicações (10), "O Artista", remeta à nostalgia das origens do cinema.

Ainda que de passaporte francês, o filme de Michel Hazanavicius ("Agente 117") homenageia o antigo cinema norte-americano, em torno do estúdio Kinograph. Mudo 99% do tempo, com bela fotografia em P&B, narra a ascensão e queda de um astro do cinema mudo, George Valentin (o habituê dos filmes de espionagem cômica do diretor, Jean Dujardin), que corre em paralelo à consagração de uma nova estrela do novo cinema falado, Peppy Miller (Bérénice Bejo).

Os dois atores, numa sequência ótima, celebram os musicais americanos - o que aproveita inclusive a impressionante semelhança de Dujardin com Gene Kelly -, contribuindo para a instalação de uma atmosfera festiva.

Apesar de que o encontro entre George e Peppy marca o nascimento de um romance, nem tudo é alegria. George, afinal, ainda é casado com Doris (Penelope Ann Miller), embora suas relações estejam mais azedas do que nunca. Profissionalmente, a estrada do astro também encontra seus primeiros obstáculos - é 1927, o cinema sonoro bate à porta e o chefão do estúdio, Al Zimmer (John Goodman), pressiona George para adaptar-se rapidamente aos novos tempos.

Seja por ingenuidade ou mesmo empáfia, nada está mais longe dos planos do ator do que começar a falar na tela. "Sou eu que as pessoas querem ver, elas nunca precisaram me ouvir", é o seu argumento. Com a chegada da graciosa Peppy, no entanto, o público se interessa cada vez mais pelos artistas que possa também escutar, além de ver. Rapidamente, George torna-se o passado, Peppy o futuro.

O contraste entre os dois só aumenta, seguindo a curva dramática vista em filmes como "Nasce uma Estrela" (em qualquer uma de suas muitas versões). O astro que sempre teve Hollywood a seus pés se confronta, pela primeira vez, com o fracasso. Os espectadores cansaram-se de seus truques, bem como de seu adorável cãozinho Uggy, um acrobata de primeira que rouba a cena sempre que pode. Para George, a perspectiva é a solidão, a bancarrota, o alcoolismo. Todos o abandonam, exceto o cão e seu fiel motorista, Clafton (James Cromwell), ainda que ele nem mesmo receba mais o seu salário.

Só um milagre pode salvar George e, inegavelmente, é este tipo de mágica de final feliz que "O Artista" persegue, além de colocar um outro tema: a procura, nas origens do cinema, de uma narrativa mais direta, simples e capaz de entreter e fazer sonhar, como sinalizou a comédia de Woody Allen, "Meia-Noite em Paris", que abriu o Festival de Cannes 2011. Deste mesmo festival, o filme de Hazanavicius, que competia pela Palma de Ouro, saiu com seu primeiro prêmio, o de melhor ator para Dujardin, que já venceu também no Sindicato dos Atores da América e é um forte concorrente ao Oscar, se o espírito patriótico da Academia de Ciências e Artes de Hollywood não falar mais alto.

"O Artista" concorre também ao Oscar de melhor filme, direção, atriz coadjuvante (para a atriz nascida na Argentina Bérénice Bejo), roteiro original, direção de arte, figurino, fotografia, montagem e trilha sonora.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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