ESTREIA-"Cada um Vive como Quer" mudou trajetória de Nicholson

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012 13:20 BRST
 

SÃO PAULO, 23 Fev (Reuters) - Dando sequência a um bem-vindo relançamento de clássicos do cinema em cópias restauradas, iniciado em dezembro de 2011 com "Taxi Driver", de Martin Scorsese, o Cine Olido de São Paulo exibe a partir da sexta-feira "Cada um Vive como Quer", de Bob Rafelson. O filme fica em cartaz na sala até 1o de março.

Este drama de 1970, com quatro indicações ao Oscar -melhor filme, roteiro original, ator (Jack Nicholson) e atriz coadjuvante (Karen Black)- foi o primeiro papel como protagonista de Jack Nicholson, que vinha do sucesso num papel secundário em "Sem Destino" (1969).

A restauração, realizada em 2010, no quadragésimo aniversário do filme, exigiu uma transferência dos negativos originais de imagem da película 35 mm para um arquivo digital com qualidade de resolução 4K. A partir desse material, técnicos especializados iniciaram um minucioso trabalho de reparação, remoção de arranhões e sujeiras quadro a quadro. Finalizada essa fase do trabalho, o arquivo digital restaurado foi transferido novamente para o negativo 35mm que, finalmente, deu origem à cópia que será exibida no Cine Olido.

Mais de uma vez, o diretor Bob Rafelson, autor da idéia original do roteiro, escrito por Carole Eastman, admitiu as ligações autobiográficas com o protagonista Robert Eroica Dupea (Jack Nicholson) - um homem de origem aristocrática que deixou para trás uma carreira como pianista clássico para tornar-se peão da indústria de petróleo, bem longe de casa.

Levando uma vida proletária, Robert liga-se à garçonete Rayette Dipesto (Karen Black), uma mulher simplória e totalmente apaixonada por ele. Robert, por sua vez, nunca está feliz. Ele se sente tão deslocado nesse ambiente quanto se sentia em casa, sob a sombra do pai, um gênio musical, e de irmãos igualmente devotados à música clássica.

Um dia, Robert entra em contato com a irmã Tita (Lois Smith), descobrindo que o pai, Carl (Ralph Waite), está muito doente. Ela o convence a voltar, pelo menos para vê-lo uma única vez. Carente, Rayette quer ir junto, mas ele acaba deixando-a à sua espera, num hotel na estrada.

O clã Dupea vive numa ilha, num ambiente dominado pela música e pelas lembranças do passado, que parece pesar nas fotografias que cobrem as paredes. Ali, Robert sente-se mais fracassado do que nunca. Um raio de luz é a presença de Catherine (Susan Anspach), namorada de seu irmão, Nicholas (William Challee), por quem ele sente uma atração tão irresistível quando arriscada.

Filmado em 40 dias no inverno de 1970, com um orçamento de apenas 900 mil dólares, "Cada Um Vive como Quer" entrou para a galeria dos filmes emblemáticos dos anos 70. Estreando no início da era Richard Nixon, encenou a dúvida existencial profunda de uma época que colocava em xeque o "american way of life", mas também já não podia mais crer na contracultura dos anos 1960.

O personagem Robert Dupea definiu a persona cinematográfica de Jack Nicholson. Tendo iniciado sua carreira em filmes B ou de terror - como "A Pequena Loja de Horrores" (1960), de Roger Corman -, a partir do filme de Rafelson se tornou um dos grandes intérpretes do cinema norte-americano, protagonizando filmes como "Chinatown" (1974), de Roman Polanski, "Um Estranho no Ninho" (1975), de Milos Forman, "O Iluminado" (1980), de Stanley Kubrick, até o recente "Os Infiltrados" (2006), de Martin Scorsese.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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