ESTREIA-"Jogos Vorazes" combina ação e crítica social

quinta-feira, 22 de março de 2012 16:34 BRT
 

SÃO PAULO, 22 Mar (Reuters) - Como toda história de uma organização social futura que se preze, em "Jogos Vorazes", o futuro visto na tela tem mais a ver com o presente do que com qualquer outra época. Buscando referências em clássicos como "1984" e "O Senhor das Moscas", o resultado do longa, baseado na famosa série de livros da escritora norte-americana Suzanne Collins, é algo raro em Hollywood: um filme de ação com músculos e cérebro - esse, bem crítico, aliás.

Numa história futurista repleta de cinismo, os reality shows chegaram a outro nível: mais do que lutar por um prêmio em dinheiro, luta-se pela vida. Ao invés de mandar os concorrentes ao paredão, os colegas de confinamento mandam flechas na testa uns dos outros, armam bombas ou simplesmente esfaqueiam-se mutuamente.

Bem-vindo ao mundo onde uma vida humana vale alguns pontos de audiência de pessoas vidradas em aparelhos de televisão gigantescos, espalhados por todos os lados, mostrando cada momento dos Jogos Vorazes - que são disputados por adolescentes entre 12 e 18 anos, sorteados numa loteria um tanto macabra - uma homenagem/referência ao conto clássico da autora norte-americana Shirley Jackson, "The lottery".

Não há muitas explicações no filme - e isso não faz falta. Pode-se depreender que, num futuro pós-apocalíptico, os EUA foram divididos em distritos e cada um deles deve ceder um casal de jovens para os Jogos - cada dupla será conhecida como Tributo. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, de "Inverno da alma") mora com a mãe e a irmã pequena, numa cidade de mineiros, no Distrito 12, onde as condições de vida não parecem muito diferentes daquelas da época da Grande Depressão, há quase um século.

Quando sua irmã é sorteada para os Jogos Vorazes, Kat aceita tomar o lugar da garota. Não custa muito para ela e seu parceiro de Distrito 12, Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de "A viagem 2"), se tornarem a sensação dessa edição do programa. Ambos passam por um processo de embelezamento, que os torna mais midiáticos - alguém com quem o público se identifique e possa torcer por um deles, até porque ambos também competirão entre si.

Seria quase uma transformação à la "My fair lady", se o resultado final fosse uma moça graciosa apenas. Mas Kat precisa ser tudo, menos delicada, para sobreviver na selva (literal), onde é jogada com outros 23 concorrentes lutando por suas vidas - e milhões de espectadores torcendo por sangue. É, a vida no futuro não é fácil para os jovens.

Se os jogos em si são uma amálgama de tantas outras histórias com temática parecida - como o japonês "Battle Royale" e o americano "Rollerball" - , em "Jogos Vorazes" a forma como se exploram a tensão e o humanismo dos personagens apaga qualquer semelhança. Kat é uma heroína e, claro, segue alguns dos paradigmas desse tipo de personagem - mas, ao mesmo tempo, Jennifer Lawrence comprova que a performance dela em "Inverno da Alma", indicada ao Oscar 2010, não foi acidente.

Ela equilibra a personagem entre a fragilidade e a inocência (afinal, é uma adolescente) e a bravura de lutar sozinha contra os outros concorrentes. Aliás, existem várias semelhanças entre as personagens dos dois filmes da jovem atriz - e não apenas o fato de ambas serem órfãs num ambiente inóspito e precisarem tomar as rédeas da família.

Coube a Gary Ross (do fantástico "A Vida em Preto e Branco" e do insípido "Seabiscuit") a difícil tarefa de encontrar o equilíbrio entre o entretenimento e a crítica social, tudo isso com embalagem de "filme para adolescente". A boa notícia é que, embora a distribuidora do filme tente vendê-lo na mesma linha de "Harry Potter" e "Crepúsculo", "Jogos Vorazes" é superior aos dois, sem a fantasia inocente do primeiro, nem o romance virginalmente meloso do segundo.   Continuação...