ESTREIA-"Xingu" sintetiza a trajetória dos irmãos Villas-Boas

quinta-feira, 5 de abril de 2012 11:27 BRT
 

SÃO PAULO, 5 Abr (Reuters) - Toda vez que se fala na questão indígena no Brasil, uma referência imediata está nos irmãos Villas-Boas.

No começo dos anos 1940, os paulistas Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Boas deixaram para trás uma vida classe média em São Paulo, juntando-se à "Marcha para o Oeste" que os colocou em contato com o ambiente em que passariam a maior parte de sua vida, na selva amazônica, e onde imprimiriam uma marca única como sertanistas - que virou referência, ainda que não acima de críticas e contestações.

"Xingu", o filme de Cao Hamburger, exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim 2012 e próxima atração no Festival de Tribeca (Nova York) este mês, recupera uma parte desta imensa herança do trio, dos quais ficaram mais conhecidos Orlando e Cláudio, depois da morte precoce do caçula Leonardo, em 1961. Orlando morreu em 2002, Cláudio, em 1998.

O primeiro desafio do filme, com roteiro de Cao Hamburger, Elena Soárez e Anna Muylaert, é o enorme período de tempo que se dispõe a atravessar - e que obriga a narrativa a dar saltos e simplificar episódios.

Apesar disso, "Xingu" supera dois grandes obstáculos ao humanizar cada um dos irmãos e deixar clara sua inquestionável defesa dos indígenas, que culminou na criação do Parque Indígena do Xingu, em 1961 - um verdadeiro milagre, que completou 50 anos mesmo diante do assédio de latifundiários e posseiros para exploração de suas riquezas e terras.

Os primeiros a largar São Paulo rumo a Goiás são Cláudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat), que têm que fingir-se analfabetos para ser aceitos na expedição que, no governo Getúlio Vargas, busca conquistar novos territórios para o chamado "progresso".

Funcionário de uma empresa petrolífera em São Paulo, Orlando (Felipe Camargo) é o último a abandonar a vida confortável pela incerteza, mas também pela aventura nessa nova fronteira do Brasil. Manifestando uma liderança natural, os irmãos logo se mostram quadros de valor na abordagem de índios isolados, arredios e, não raro, agressivos contra uma invasão branca afoita e causadora de justificada desconfiança.

Sem formação específica para isso, os irmãos logo se tornam naturais interlocutores dos índios, de quem aprendem línguas, costumes, além de tornar-se seus maiores protetores.

Estas boas intenções por parte dos Villas-Boas não bastam para preservar as populações nativas da cobiça econômica e de uma vasta agenda política, que leva especialmente Orlando a tornar-se uma espécie de negociador permanente com os sucessivos governos do país: Getúlio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros (no governo de quem se criou o Parque do Xingu), João Goulart e os presidentes militares pós-golpe de 1964.   Continuação...