ESTREIA-"As Neves do Kilimanjaro" celebra a generosidade

quinta-feira, 5 de abril de 2012 15:39 BRT
 

SÃO PAULO, 4 Abr (Reuters) - Ao centro de "As Neves do Kilimajaro", novo filme do francês de ascendência armênia Robert Guédiguian, há uma pergunta bastante relevante para nossa época: vale a pena ser bom nos dias de hoje? Os otimistas de coração, é claro, vão dizer sim, sem pensar duas vezes. Mas não é a eles que o filme se destina. É àqueles que vivem conscientes de nosso mundo, sem utopias. O filme estreia apenas em São Paulo.

Inspirado num poema de Victor Hugo chamado "Os Pobres", o enredo é uma verdadeira declaração humanista de amor ao próximo, sem qualquer ingenuidade ou pieguice. É a prova de que um mundo melhor é possível, especialmente porque à frente estão personagens de carne e osso, daqueles que choram, se alegram, comemoram, erram e tentam consertar os erros, ou ao menos sobreviver a eles.

Mesmo em tempos de crise séria, é de se estranhar que uma lista de demitidos seja montada por meio de uma loteria. Mas é assim que até o líder sindical Michel (Jean-Pierre Darroussin) acaba perdendo seu emprego no porto de Marselha. A mulher, Marie-Claire (Ariane Ascaride), com quem é casado por três décadas, trabalha como acompanhante de uma senhora de idade. E o casal consegue virar-se com o dinheiro que tem, mesmo com o marido desempregado.

Ao comemorarem o aniversário de casamento, ganham dos filhos adultos e dos amigos uma passagem e dinheiro para ir à África e conhecer o monte Kilimanjaro, na Tanzânia - um sonho antigo do casal. A alegria dura pouco, pois eles são roubados e sofrem tanta violência que chega até a traumatizar Denise (Marilyne Canto), mulher do melhor amigo de Michel, Raoul (Gérard Meylan). Os ladrões levam o dinheiro e as passagens, além de um gibi antigo, que terá uma função importante mais tarde na trama.

A partir dessa virada, "As Neves do Kilimanjaro" toma rumos inesperados. Por acaso, Michel descobre que um dos assaltantes era um ex-colega de trabalho (Grégoire Leprince-Ringuet). A prisão do rapaz, o que praticamente transforma seus dois irmãos menores em órfãos, torna-se uma chance para Michel e Marie-Claire repensarem, aos poucos, suas posições.

O que eles esperam do mundo?, parece perguntar o filme. A resposta vem sob forma de outra pergunta: o que eles têm a oferecer ao mundo? A essa indagação, Michel e Marie-Claire mostram que mesmo numa Europa - especialmente a França - de onde a generosidade parece ter ido embora, ainda há espaço para a bondade.

Evidentemente, isto nem sempre é visto com bons olhos - especialmente pelos filhos adultos do casal que não entendem o envolvimento dos pais com os irmãos daquele que os machucou, fisicamente e emocionalmente, além de roubá-los.

Mas Guédiguian, do alto de seu humanismo delicado, coloca o ser humano no primeiro plano, com suas contradições, erros e acertos. Marie-Claire e Michel não poderiam representar melhor a condição humana em um filme. Mas não são meras marionetes nas mãos de um diretor que quer defender uma tese. Eles são humanos e isso é mostrado a cada momento e a cada atitude que tomam.

Ao falar de seres humanos, gente como a gente, Guédiguian faz uma bela e delicada celebração da vida. O cenário idílico de um bairro de Marselha - região onde o diretor viveu praticamente toda sua vida - vem como um bônus. Mas é o Kilimanjaro que ganha uma dimensão maior, a do sonho inatingível e, por isso mesmo, eternamente desejado. O fato de nunca poderem conhecer o monte africano não fará de Michel e Marie-Claire pessoas piores ou infelizes. Pelo contrário, o incidente que os impede de sair de sua cidade é que catalisa transformações maiores do que aquelas que encontrariam fora de casa.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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