ESTREIA-Johnny Depp vive novo alter ego do amigo Hunter Thompson

quinta-feira, 19 de abril de 2012 13:50 BRT
 

SÃO PAULO, 19 Abr (Reuters) - Ter nascido no Estado norte-americano do Kentucky foi uma das muitas afinidades que uniram o escritor Hunter Thompson (1937-2005) e o ator Johnny Depp. Espíritos livres que desconfiaram dos sistemas de que fizeram parte, fossem o jornalismo, a literatura, o cinema e a própria vida, os dois se tornaram grandes amigos. Por isso, foi muito lógico que o ator assumisse a missão de transformar-se no alter ego de Thompson nas adaptações de seus livros nas telas, como aconteceu há 14 anos em "Medo de Delírio em Las Vegas".

Depp repete a dose em "Diário de um Jornalista Bêbado", dirigido e roteirizado por Bruce Robinson. O filme pode ser visto como uma espécie de introdução ao universo de Thompson, antes que se tornasse o pioneiro por excelência do chamado "jornalismo gonzo" - uma espécie de filho bastardo do New Journalism, atravessado pela contracultura dos anos 1960, que se caracterizou por desvirtuar as regras da objetividade mediante a inserção de vivências e percepções extremamente pessoais de seus autores.

O alter ego de Thompson na história, adaptada do livro "Rum - Diário de um Jornalista Bêbado", é um jovem jornalista, Paul Kemp (Depp), que deixa os EUA no final dos anos 1950 para trabalhar em Porto Rico, no diário local em língua inglesa, San Juan Star.

Quando atravessa pela primeira vez a porta da redação, Kemp já percebe onde se meteu. O editor, Lotterman (Richard Jenkins), é um alucinado com mania de perseguição, que grita com todo mundo enquanto manobra um verdadeiro malabarismo mental e financeiro para manter o jornal. A qualquer momento, cruza a redação um bêbado em estágio terminal, Moberg (Giovanni Ribisi), que é sempre esculhambado por Lotterman. O fotógrafo, Bob Sala (Michael Rispoli), abarrotado de trabalho, é o único que parece ter algum bom senso por ali.

Mas esta é também uma impressão relativa. Passando a dividir um apartamento com Sala, o recém-chegado Paul é incorporado a uma rotina que inclui pouco trabalho e passagens diárias pelos bares, onde eles e todos os colegas se encharcam de rum.

O filme capta o clima de total inadequação dos personagens neste mundo, ao qual não fazem esforço algum para aderir. Nenhum deles fala espanhol nem se confraterniza realmente com qualquer dos habitantes locais. Bem ao contrário. Numa noite em que armam uma arruaça depois que o cozinheiro de um bar se nega a servi-los, por ter passado da hora, Kemp, Moberg e Sala acabam na prisão. São salvos por um ex-jornalista, agora figurão local, Hal Sanderson (Aaron Eckhart) - que funde em um só dois personagens do livro, que aliás é bem mais niilista do que o filme.

Depp injeta uma notável dose de humor na sua interpretação de um personagem idealista e perdido na própria confusão, oscilando entre uma visão romântica do jornalismo e o próprio ceticismo diante da profissão e de tudo o mais. Nesta história, não há realmente sonhos, nem heróis.

Única figura feminina neste universo, a bela Chenault (Amber Heard), desponta como outra integrante desta nau desgovernada. Ela não é mais lúcida nem esperançosa do que ninguém.

"Diário de um Jornalista Bêbado" captura o espírito de Thompson, que tinha 22 anos ao escrever o livro que o inspira, retratando um clima de rebeldia e transgressão de sua época. Também estão em cada linha, como em cada cena aqui, o desespero de um filho de pais alcoólatras que teve um contato precoce com o desespero e que se matou, com um tiro de espingarda, aos 68 anos. Não sem deixar nítida sua marca.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Atores Johnny Depp (E), Amber Heard (C) e diretor Bruce Robinson posam para fotógrafos durante exibição do filme "Diário de Um Bêbado", em Paris, em novembro de 2011. 08/11/2011 REUTERS/Gonzalo Fuentes