ESTREIA-"Girimunho" investiga nostalgia e passagem do tempo

quinta-feira, 26 de abril de 2012 11:40 BRT
 

SÃO PAULO, 26 Abr (Reuters) - "Girimunho", que estreia na sexta-feira, depois de uma boa carreira por festivais internacionais (Veneza, Toronto, San Sebastián e Mar Del Plata, entre outros), não é apenas um filme sobre o tempo e a saudade. O primeiro longa de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. mistura documentário e ficção ao abordar a nostalgia do não vivido, a perda e a capacidade do ser humano de se redescobrir e reencontrar. Tudo isso no meio do mítico sertão mineiro, à la Guimarães Rosa, onde o real e o fantástico nem sempre se definem.

Quem são esses personagens que viveram diante das câmeras e agora estão na tela? Aos poucos, o filme dá dicas, mostra uma coisinha aqui, outra ali, mas nunca os mistérios são completamente desvendados, permitindo ao público compartilhar a vida dessas pessoas. Mais do que interpretar, as mulheres, homens, jovens e crianças vivem seus pequenos dramas cotidianos e enfrentam suas grandes dúvidas existenciais.

O que move a narrativa são pequenos ritos de passagem, desencadeados pela morte repentina do marido de Bastú, que passa a ser cuidada pelos três netos. A perda não se transforma numa experiência traumática ou numa epifania, é apenas uma perda. A vida segue. Não fosse pelo fantasma do marido que a assombra - ou talvez seja apenas a imaginação fértil dela.

Clarissa e Helvécio pintam essas pequenas vidas em forma de miniaturas que crescem por serem únicas, mas no fundo são também os dramas de todos nós. É impossível não pensar na frase do escritor russo Liev Tolstói ao assistir "Girimunho": "Pinte o seu quintal e você estará pintando o mundo". As cores locais do filme brasileiro ganham dimensões universais ao colocar o homem no seu centro.

O sertão mítico, quase irreal, de "Girimunho" teria muito também a dialogar com aquele de "Terra Deu, Terra Come", de Rodrigo Siqueira, filme de 2010, premiado no festival de documentários É Tudo Verdade, que tem o mesmo sertão de Guimarães Rosa como cenário, e também brinca com a encenação e o documental. Ambos caminham em cima dessa corda bamba, sem nunca pender para um lado, sempre em passos firmes e certeiros. Mas até que ponto importa o que é real, o que é reencenado? Praticamente nada.

É dona Bastú quem domina o filme. Sabiamente, os diretores não se deixam levar por saídas fáceis que transformariam a personagem em heroína ou algo parecido. Sua sabedoria não é um dom natural, é o fruto de sua existência, mas seu carisma é outra coisa. É instintivo, coisa que muitos atores e atrizes com anos de experiência, cursos e laboratórios não são capazes de copiar.

A bela fotografia de Ivo Lopes Araújo favorece não apenas as paisagens naturais e os personagens, como também as festas populares, que são valorizadas pelo trabalho de som competente, assinado por O Grivo e Ricard Casals.

Uma fala de dona Bastú ("O tempo não para. Ele que nos para") é praticamente uma releitura de uma famosa frase de Machado de Assis ("Matamos o tempo, e ele nos enterra"). E o tempo é o senhor, às vezes gentil, às vezes cruel, que se faz presente em "Girimunho". Aqui, o tempo é como o vento, às vezes lento, às vezes nem tanto. E o filme o absorve, girando num ritmo próprio.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)