ESTREIA-Pina Bausch ganha nova homenagem em "Sonhos em Movimento"

quinta-feira, 26 de abril de 2012 12:07 BRT
 

SÃO PAULO, 26 Abr (Reuters) - Em 2008, 30 anos após a estreia de uma de suas criações mais celebradas, "Kontakthof", a coreógrafa alemã Pina Bausch decidiu remontar o número com um elenco formado por adolescentes sem nenhuma experiência anterior em dança. A fascinante experiência foi acompanhada, ao longo de um ano, no documentário "Sonhos em Movimento", dos diretores Anne Linsel e Rainer Hoffman - que registraram também as últimas imagens filmadas de Pina, que morreu em junho de 2009.

De várias maneiras, "Sonhos em Movimento" dialoga com outro documentário, "Pina", de Wim Wenders. Isto acontece especialmente porque o filme de Wenders, que realiza um amplo balanço do trabalho da coreógrafa, até por ter sido feito após sua morte, inclui também alguns trechos de "Kontakthof", que foi remontado em 2000, com um elenco de maiores de 65 anos. Além disso, as duas bailarinas que conduzem o treinamento dos adolescentes em 2008, Josephine Ann Endicott e Bénédicte Billet, são igualmente personagens de "Pina".

A partir destas interseções, os dois filmes seguem caminhos muito diferentes e "Sonhos em Movimento", embora restrito apenas a um dos muitos trabalhos de Pina, pode afirmar o seu encanto. Ele se localiza especialmente na forma como a coreógrafa e suas dedicadas bailarinas veteranas são capazes de esculpir o talento de 40 jovens, entre 14 e 18 anos, da cidade de Wuppertal - sede da companhia -, lidando com o desafio de sua falta de experiência.

A primeira característica que salta aos olhos é a ausência de barreiras na seleção. Não se exige, por exemplo, um físico especial. Há jovens de todos os tipos, altos, baixos, magros, gordos, com óculos, aparelhos nos dentes, tatuagens. A diversidade racial e étnica, típica de uma cidade com forte presença de imigrantes, é outro aspecto evidente.

O filme acompanha os jovens no dia a dia dos ensaios, aos sábados, e também fora dali, no ambiente de suas casas. Assim, histórias pessoais marcadas por tragédias, como a perda de pais e a fuga de ancestrais de países em conflito, progressivamente vão entrando em foco.

A enorme tarefa de Jo-Ann e Bénédicte será encontrar denominadores comuns a estas dezenas de histórias pessoais, levando o grupo a alcançar uma unidade capaz de levá-lo a dominar as muitas sequências do balé, bastante complexo, até o espetáculo final. No meio do caminho, as naturais inibições, dúvidas e crises da adolescência entrarão como obstáculos que as condutoras tentarão acomodar, maternalmente.

Periodicamente, a própria Pina comparece para supervisionar o andamento do trabalho. Uma de suas primeiras atitudes é dissipar a atmosfera de medo que se cria diante de sua presença. Exigente, mas compreensiva, ela virá às vezes para afinar o ritmo. Mas fica sempre claro o quanto o processo é difícil.

Aproximando-se de seus personagens, o filme os humaniza. Assim fazendo, torna mais nítido o tamanho da façanha a que se propõem ao encenar "Kontakthof" - um trabalho que lembra o filme "O Baile", de Ettore Scola, e repassa diversas situações de relacionamentos humanos, como sedução, timidez, paixão, ternura, solidariedade.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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