ESTREIA-Documentário "Paralelo 10" acompanha sertanista

quinta-feira, 3 de maio de 2012 12:58 BRT
 

SÃO PAULO, 3 Mai (Reuters) - Alguém mais desavisado, poderia dizer que "índio" é o assunto do momento para o cinema brasileiro. "Xingu" e "Vale dos Esquecidos", no mês passado, e, agora, o documentário "Paralelo 10", que também trata dos povos nativos. Mas, mais do que uma moda temática, esse é um assunto de relevância que ganha no filme de Silvio Da-Rin mais argumentos para o debate da questão. O cinema tem dado a chance ao Brasil de fazer uma revisão - ou, no caso de alguns filmes, como esse , tomar conhecimento - sobre a relação dos "civilizados" com os povos indígenas.

O condutor de "Paralelo 10", que estreia em São Paulo nesta semana (e no Rio, na próxima), é o sertanista José Carlos Meirelles, figura carismática e com boas histórias para contar. Ele e o antropólogo Terri Aquino sobem o Rio Envira, no Acre, depois de ficarem um ano e meio afastados da região do Paralelo 10 Sul, linha de fronteira com o Peru. O filme os acompanha durante duas semanas, enquanto se dirigem à região onde irão ajudar os povos Madija e Ashaninka a encontrar melhores formas de se relacionar com outros mais "hostis".

Durante a jornada rio acima, Meirelles conversa também sobre questões não apenas indígenas, mas também de seu ofício. A questão delicada de fazer o contato, sem, ao mesmo tempo, acabar com a cultura ou introduzir qualquer modificação no modo de vida dos nativos. Ativo desde 1970, no final dos anos de 1980 o sertanista se destacou como um dos mentores da preservação dos índios isolados.

O filme, aos poucos, desmonta também ideias românticas sobre a questão, como quando teve de reagir à bala, em legítima defesa, contra flechadas, quando foi cercado por mais de 100 índios. E questiona a famosa frase de Rondon ("Morrer, se preciso for, matar, nunca"), que, como diz Meirelles, contava com centenas de pessoas em sua comitiva.

O ponto alto de "Paralelo 10" é a reunião de Meirelles com os indígenas para negociar seu relacionamento com as demais aldeias. Questões do passado, claro, emergem, assim como novos problemas com que o sertanista tem de lidar. Da-Rin filma o trabalho e a figura do sertanista com a curiosidade de quem quer saber tudo sobre o assunto, mas também dando espaço para que as vozes da floresta falem por si.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)