ESTREIA-Diretor japonês Kore-eda se volta para o mundo infantil

quinta-feira, 17 de maio de 2012 10:02 BRT
 

SÃO PAULO, 17 Mai (Reuters) - Infância é igual, não importa o lugar ou o tempo, parece dizer "O que eu mais Desejo", novo filme do japonês Hirokazu Kore-eda, que estreia na sexta-feira no Brasil.

Uma ode à simplicidade e ingenuidade do universo infantil, o longa estabelece um diálogo com um dos trabalhos mais famosos do diretor, "Ninguém Pode Saber" (2004), ao trazer protagonistas-mirins lidando com as agruras do mundo adulto. Nos filmes, as crianças, muitas vezes, parecem ter mais bom senso do que os adultos.

Os dois filmes foram também escritos pelo diretor, mas se o de 2004 é a sombra, esse novo trabalho é a luz. Menos pesado, menos tenso e altamente lúdico, "O que eu mais Desejo" parte da história de dois irmãos obrigados a se separar com o fim do casamento de seus pais. O mais velho, Koichi (Koki Maeda), fica com a mãe, Nozomi (Nene Ohtsuka), que volta para a casa dos pais e procura um trabalho. Enquanto Ryu (Ohshiro Maeda) mora com o pai músico de vida desregrada, Kenji (Joe Odagiri).

A distância não enfraquece a amizade dos dois meninos que sempre foram muito próximos e, com a ajuda do celular, mantêm contato. Eles acreditam que se presenciarem o exato momento em que dois trens-bala em direções contrárias se encontram poderão fazer um pedido que irá se realizar. Porém, para isso, precisam juntar dinheiro e passar um dia fora de casa.

Na medida em que planejam a saída, mais crianças entram na história e também querem presenciar o encontro dos trens, e assim realizar sonhos. Cada um tem o seu desejo, uma delas, por exemplo, quer ser uma atriz famosa, enquanto alguns meninos são apaixonados pela bibliotecária da escola. Assim, Kore-eda circunda a história dos dois irmãos por personagens repletos de dramas e desejos.

É como se o filme juntasse duas pontas da vida. O avô dos meninos (Isao Hashizume) e seus amigos tentam reinventar um tipo de bolo famoso, enquanto a avó (Kirin Kiki) faz aula de dança. Kore-eda lança um olhar carinhoso para os que creem em seus sonhos, por mais exagerados e improváveis que possam parecer.

Já aos adultos cabe o mundo real com seus medos e decepções. É nesse mundo que as crianças entrarão mais, e é rumo a essa compreensão que o filme caminha. Mas o diretor jamais cai na pieguice ou na obviedade que o tema sugere.

Um vulcão que lança cinzas incessantemente serve com uma bem-resolvida metáfora para a existência pesada, embora tão jovem, do irmão mais velho, Koichi. A compreensão da transitoriedade da vida virá para as crianças, com o tempo, e essa experiência será fundamental no processo de amadurecimento.

Exceto os dois protagonistas, as demais crianças não eram atores e não tinham qualquer formação na área, trazendo com isso naturalidade e graça aos seus personagens. Em outras palavras, são crianças sendo crianças, e não atores interpretando crianças.   Continuação...