ESTREIA-Personagens de "Verão Escaldante" parecem sofrer dor inexistente

quinta-feira, 31 de maio de 2012 12:01 BRT
 

SÃO PAULO, 31 Mai (Reuters) - Mais uma vez, o francês Philippe Garrel fala, ou tenta falar, de amor em "Um Verão Escaldante", que estreia no Brasil nesta sexta-feira depois de passar praticamente despercebido no Festival de Veneza do ano passado, não fossem as pedradas que levou.

Mais uma vez, o filho do cineasta, Louis Garrel, é o protagonista e, novamente, interpreta o mesmo papel que fez nos últimos anos, o do jovem apaixonado e perturbado, como em "Amantes Constantes", "A Fronteira da Alvorada" (ambos do pai) e alguns outros, como "Os Sonhadores".

A trama situada em Roma busca alguma relação espacial e temática com "O Desprezo", de Jean-Luc Godard, mas morre na intenção, uma vez que falta ao cineasta inspiração e frescor.

Louis é o pintor Frédéric, casado com a atriz Angèle (Monica Bellucci). Quando conhece Paul (Jérôme Robart), aspirante a ator, convida-o para se hospedar com o casal. Este traz também sua namorada, Élisabeth (Céline Sallette).

Os quatros falam, e falam muito, como bem manda a cartilha do cinema francês. O grupo filosofa sobre paixão, amizade, desejo e traição. Fica quase óbvio onde Garrel pai quer chegar, e, por isso mesmo, o filme cai na mesmice que promete armar desde o começo.

A trama, assinada pelo diretor e Marc Cholodenko e Caroline Deruas-Garrel, é narrada por Paul, o que não faz muito sentido quando ele conta algumas cenas nas quais não estava presente. Em cena, Garrel filho mostra a apatia que lhe é constante. Belluccci, por sua vez, tira a roupa em algumas cenas, mas isso não é o bastante para a dimensão densa que a personagem aspira ter.

Em "Um Verão Escaldante" todo mundo chora, briga, grita, ama e odeia com certa intensidade. É inquietante ver como o cinema de Garrel parece ter parado no tempo, com seus personagens vivendo numa outra dimensão, onde os problemas são, basicamente, de ordem emocional. Eles adoram sofrer por amor, e sofrem tanto que é difícil saber se estão realmente com dor ou apenas inventando-a por prazer diante da câmera.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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