ESTREIA-Walter Salles pega carona com Jack Kerouac em "Na Estrada"

quinta-feira, 12 de julho de 2012 11:34 BRT
 

SÃO PAULO, 12 Jul (Reuters) - Levou oito anos para Walter Salles concluir o esperado "Na Estrada", a adaptação de um dos maiores clássicos beat de todos os tempos, "On the Road" ("Pé na Estrada"). Assinado por Jack Kerouac e publicado em 1957, o livro se tornou uma das bíblias da contracultura, embalando gerações à procura de liberdade e experimentação na própria pele, numa era pré-Internet.

Concorrente à Palma de Ouro em Cannes 2012, esta coprodução entre a França e o Brasil --apesar da produção executiva assinada pelo velho leão do cinema independente norte-americano, Francis Ford Coppola-- dividiu opiniões em sua passagem pelo festival francês, o que certamente acompanhará também sua trajetória nos cinemas.

Conduzido com a habitual perícia de Salles, que leva consigo o roteirista portorriquenho Jose Rivera e o diretor de fotografia francês Éric Gautier, seus parceiros em "Diários de Motocicleta" (2004), o filme encharca-se da melancolia que é o tom predominante do livro, narrando as memórias do escritor iniciante Sal Paradise --o alterego de Kerouac--, interpretado com intensidade na medida pelo ator britânico Sam Riley, o magnético intérprete do roqueiro Ian Curtis em "Control".

É toda construída de nostalgia, portanto, esta memória das aventuras juvenis na estrada de Sal e seu amigo Dean Moriarty, este, por sua vez, o alterego do escritor Neal Cassady, interpretado por Garrett Hedlund com uma voracidade que homenageia o jovem Marlon Brando, ator que chegou a ser pensado pelo próprio Kerouac para o papel, numa das muitas tentativas frustradas de adaptação para o cinema.

A tensão entre as diferenças profundas entre os dois personagens, unidos por uma mesma fome de vida, embalam uma vertiginosa troca de paisagens, de Nova York ao México, riscando na pele dos dois, e de vários companheiros de caronas pela estrada, um mapa de acontecimentos fortuitos. Como bebedeiras, canções, trabalhos eventuais, comida ruim ou nenhuma, a exposição às intempéries do clima, a camaradagem encontrada e logo perdida. E as mulheres.

KRISTEN STEWART E ALICE BRAGA

Personagens marginais no livro, as mulheres ocupam um pouco mais de espaço na tela. A principal é Marylou (Kristen Stewart, deixando "Crepúsculo" para trás), a primeira mulher de Dean, que se torna uma espécie de galvanizador entre ele e Sam, já que Dean insiste em que ela vá para a cama com o amigo.

Esta espécie de amoralidade, que também se espalha ao consumo de drogas, além de bebidas, é um lembrete de um tempo bem mais libertário e libertino do que os dias atuais, cristalizando uma espécie de utopia em busca de uma vida sem limites que a chegada da maturidade baliza para Sal, mas não para Dean, que sonha em viver sem compromissos para sempre.

A segunda mulher de Dean, Camille (Kirsten Dunst, vivendo personagem inspirada em Carolyn Cassady), é justamente essa "voz da razão" na vida dele. Mãe de seus dois filhos, ela sinaliza seu desejo de parada e estabilidade. Mas não é essa a natureza de Dean.   Continuação...