19 de Julho de 2012 / às 18:30 / 5 anos atrás

ESTREIA-Em "Valente", Pixar se rende à forma Disney de histórias

SÃO PAULO, 19 Jul (Reuters) - Lá se vão quase 20 anos desde que a Pixar se firmou com o primeiro “Toy Story” (1995) e só agora, em “Valente”, o estúdio coloca como protagonista uma personagem feminina, Merida (dublada por Kelly Macdonald, na versão original/Luisa Palomanes, na versão nacional), jovem estrela da nova animação que estreia em cópias convencionais e 3D, ambas com opções legendadas e dubladas.

Se o mérito está em colocar no centro da trama uma menina --coisa que o estúdio Disney já fizera em 1998, em “Mulan”--, por outro lado, os diretores Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell parecem se render aos valores familiares pasteurizados do mundo Disney, tornando este filme o mais fraco da Pixar.

O mesmo não se diga do quesito técnico, em que o estúdio se supera a cada longa. “Valente” parece o mais bem acabado, que combina da melhor forma realismo e estilização no trato das personagens e cenários.

O cabelo desgrenhado de Merida, por exemplo, é impressionante, sendo possível distinguir suas mechas e cachos em meio ao emaranhado de fios ruivos que parecem devorar a garota. O pai, a mãe e seus pequenos irmãos não são tão providos de detalhes como a protagonista mas o cenário compensa isso.

O conflito principal é entre Merida e sua mãe, a rainha Elinor (Emma Thompson/Mabel Cézar) --ou seja, entre a tradição e a modernidade. A garota se comporta como um menino, é boa de arco-e-flecha, não tem lá bons modos e pouco se importa em casar ou não com um príncipe. Ao contrário da mãe, que a quer na linha --mais ou menos como uma princesa convencional da Disney, à espera do príncipe encantado.

A mãe convoca uma competição para escolher o futuro marido de Merida. Chegam três jovens de reinos vizinhos, herdeiros do lorde Dingwall (Robbie Coltrane/Rodrigo Lombardi), do lorde Macguffin (Kevin McKidd/Luciano Szafir) e do lorde Macintosh (Craig Ferguson/ Murilo Rosa).

De certo modo, a rainha Elinor é uma parente distante das madrastas más dos contos de fada --com o diferencial de que ela quer “o bem” da heroína. Essa boa intenção, claro, é discutível, pois leva em conta apenas o ponto de vista dela mesma.

Merida, por sua vez, estaria mais para Katniss Everdeen, a audaciosa protagonista de “Jogos Vorazes”, do que para Branca de Neve --não fosse o andamento da trama que impõe uma história familiar sobre redenção e aceitação.

O roteiro, assinado pelos diretores e Irene Mecchi, perde força a partir do momento que estabelece qual é sua linha. Merida faz um pacto com uma bruxa (Julie Waters/Carmem Sheila), que dá errado e sua mãe acaba se transformando num urso. E apenas a garota será capaz de desfazer o feitiço. Salvar a mãe significa preservar a instituição e os valores familiares.

Ao transformar Merida numa espécie de guerreira, os diretores perdem a mão e não sabem como lidar com a personagem feminina. Ela poderia ser um menino e isso não faria muita diferença. Assim, trai-se a ideia feminista que permeia a personagem, sua liberdade de escolha e tudo o mais, restando uma personagem que se contenta em ser apenas divertidinha.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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