ESTREIA-"Corações Sujos" não aprofunda história e dramas de livro

quinta-feira, 16 de agosto de 2012 12:21 BRT
 

SÃO PAULO, 16 Ago (Reuters) - Em sua adaptação do livro-reportagem "Corações Sujos", de Fernando Morais, o diretor Vicente Amorim ("O Caminho das Nuvens") deixa de lado a abrangência do plano histórico do texto para se concentrar no drama pessoal de alguns dos personagens.

No filme, por exemplo, nem é citado o nome da organização "Shindo Renmei" que alavanca a história sobre imigrantes japoneses que não acreditavam na derrota de seu país na Segunda Guerra Mundial.

Muito por conta dessa opção, o roteiro, assinado por David França Mendes, não dá conta de, ao menos, organizar os fatos e delinear uma trama coesa. Ao centro do livro de Morais, está uma disputa entre grupos de japoneses que não acreditavam no fato histórico e aqueles que aceitaram a verdade.

Além de segregada, a colônia japonesa, no interior de São Paulo, era reprimida pelo Estado e se regia por leis próprias. Os que aceitaram a derrota do Japão na guerra, conhecidos como "Corações Sujos", deviam ser assassinados por supostamente traírem o imperador.

No seu livro, Morais parte do plano histórico geral para, aos poucos, delinear pequenos dramas pessoais, repletos de detalhes substanciais que dão conteúdo extremamente humano à obra.

A prosa fluida do jornalista é um convite a uma adaptação cinematográfica. Ninguém é purista a ponto de esperar, no filme, uma cópia fiel do livro.

Mas não deixa de ser frustrante ver tantas boas histórias desperdiçadas por uma trama que gira em falso, não esclarece nada sobre seus mecanismos internos, transformando os rebeldes num mero grupo de baderneiros ao privá-los de qualquer ideologia mais clara.

Mesmo longe de sua terra natal, a colônia japonesa não abre mão de suas recordações.

Na loja de fotografia de Takahashi (Tsuyoshi Ihara, de "Cartas de Iwo Jima"), o fundo preferido para os retratos é o Monte Fuji. A mulher dele, Miyuki (Takako Tokiwa), monta uma escola japonesa para crianças, indo contra o governo que proibia tal prática.   Continuação...