ESTREIA-"Cabra Marcado para Morrer" tem cópia restaurada em SP

quinta-feira, 13 de setembro de 2012 10:25 BRT
 

SÃO PAULO, 13 Set (Reuters) - "Cabra Marcado para Morrer" (1984), de Eduardo Coutinho, é, por muitas razões, um filme que virou mito. Sem deixar de ser um grande, inesquecível, imperdível filme, que volta a circular em cópia restaurada, em São Paulo.

Quando o projeto começou, no início dos anos 1960, pensava-se numa obra de ficção, em que camponeses reencenariam uma história real, a do líder camponês João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé (PB), assassinado a mando de latifundiários em 1962.

Mais de uma vez, o projeto foi atravessado pela vida e pela História. Quando finalmente o cineasta Eduardo Coutinho teve os recursos para a filmagem, produzida pelo Centro Popular de Cultura da UNE e o Movimento de Cultura Popular (PE), já corria o ano de 1964.

As filmagens foram interrompidas pela ditadura que baixou sobre o país, houve imagens e câmeras perdidas, membros da equipe presos ou fugitivos. Uma parte do material filmado milagrosamente se preservou. Por isso, "Cabra..." já entrava no território da lenda.

A obra sobreviveu a peripécias que, caso pertencessem à ficção, pareceriam inventadas -- caso de latas do filme escondidas debaixo da cama de um general, pai do cineasta David Neves, negativos salvos por terem sido enviados a revelar no Rio e ocultos na Cinemateca do MAM sob um título falso, "A Rosa do Campo".

Mais dramática do que a história do próprio filme, sem dúvida, foi a diáspora imposta pela ditadura à família do líder assassinado -- sua mulher, Elizabeth Teixeira, fugida também com nome falso para o interior do Rio Grande do Norte, carregando apenas um dos 11 filhos. Os demais foram entregues aos cuidados do avô e dos tios, espalhando-se depois por vários Estados do Brasil.

Na cópia agora impecavelmente restaurada da produção, originalmente concluída em 1984, reencontram-se os vários tempos desta longa e trágica saga, símbolo das incertezas e contradições da nação, mas também testemunho da resistência de seus habitantes e de seus artistas.

Por muitas razões, este "Cabra..." tornou-se um marco, inclusive inaugural da carreira do mais famoso documentarista do Brasil (que aqui abandona o "Globo Repórter"). Uma delas, a maneira como os vários tempos convivem dentro da trama -- as imagens restantes do filme inicial de 1964; as sucessivas retomadas do projeto, pela teimosia de Coutinho, no início dos anos 80, após a abertura política proporcionada pela anistia de 1979; e agora, em 2012, as cores reencontradas na restauração, o som audível como nunca.

No reencontro de Elizabeth e na sua progressiva transformação diante da câmera, ao reencontrar a identidade sufocada da antiga líder camponesa, o filme encontra sua espinha dorsal, incorporando ainda o diretor-personagem, com um Coutinho, ainda de cabelos pretos, em cena, uma inovação tremenda nos documentários dos anos 1960.   Continuação...