ESTREIA-Em "Moonrise Kingdom", Wes Anderson consolida universo próprio

quinta-feira, 11 de outubro de 2012 11:16 BRT
 

SÃO PAULO, 10 Out (Reuters) - No cenário do cinema norte-americano contemporâneo, Wes Anderson é um dos diretores mais originais. Enquanto a maioria faz filmes realistas, e aí se incluem outros grandes cineastas, ele é um dos poucos capazes de criar um mundo próprio.

Autor de filmes como "Os Excêntricos Tenenbaums" e "Viagem a Darjeeling", Anderson não segue a cartilha hollywoodiana que prega a mímese extrema em que cada cena se esforça para que o público esqueça de que o que vê é um filme. Faz parte do ideal desse tipo de cinema copiar ao máximo o nosso mundo, levar para a tela uma fatia da vida real.

Anderson, por sua vez, cria microcosmos parecidos com a realidade, mas regidos por leis próprias, nos quais vida e morte, amor e perda têm a mesma dimensão, ainda que operando numa outra dinâmica.

O começo de seu mais novo trabalho, "Moonrise Kingdom", abre com uma música clássica sobre a qual uma voz infantil explica cada movimento, a função e a significação dos instrumentos musicais e seus sons -- tirada do "Young Person's Guide to the Orchestra" (Op. 34, Themes A-F), tocando "Moor's Revange", de Dominic Purcell.

Os filmes do diretor parecem ser assim, precisam de uma advertência: suspenda aquilo que você conhece, preste atenção, porque aqui as coisas acontecem de outra forma, e veja, vamos te explicar como é.

A paleta de cores é sempre composta por tons pastel. A imagem parece esmaecida, coberta por uma poeira do tempo que a torna pálida, envelhecida como uma polaróide maltratada pelo tempo -- graças à fotografia de Robert D. Yeoman. A trilha sonora, assinada pelo francês Alexandre Desplat, contribui para o clima onírico. O ano da história é 1965 e a localização é uma ilhazinha remota, na costa dos EUA.

No universo de Anderson, as crianças são superdotadas. Mesmo que, quando cresçam, continuem com sua mentalidade de meninos-prodígios - basta lembrar o trio de filhos dos "Tenenbaums".

Aqui, não é diferente. Suzy (Kara Hayward) parece ser muito mais madura do que seus 12 anos de idade. Encontrar em cima da geladeira da família uma cópia do livro "Como lidar com crianças extremamente problemáticas" é a gota d'água para que ela fuja de casa, juntando-se ao escoteiro Sam (Jared Gilman), que conhecera tempos antes, quando ela participava, na igreja local, de uma ópera baseada na Arca de Noé.

Essa ópera chama-se "Noye's Fludde" e foi criada por Benjamin Britten, no final dos anos 1950, para ser montada de forma amadora em igrejas. O coro é formado por animais da arca. Por isso, não é surpresa que haja um dilúvio iminente no filme, que sempre coloca os personagens em estado de alerta.   Continuação...