October 11, 2012 / 2:27 PM / in 5 years

ESTREIA-Em "Moonrise Kingdom", Wes Anderson consolida universo próprio

6 Min, DE LEITURA

SÃO PAULO, 10 Out (Reuters) - No cenário do cinema norte-americano contemporâneo, Wes Anderson é um dos diretores mais originais. Enquanto a maioria faz filmes realistas, e aí se incluem outros grandes cineastas, ele é um dos poucos capazes de criar um mundo próprio.

Autor de filmes como "Os Excêntricos Tenenbaums" e "Viagem a Darjeeling", Anderson não segue a cartilha hollywoodiana que prega a mímese extrema em que cada cena se esforça para que o público esqueça de que o que vê é um filme. Faz parte do ideal desse tipo de cinema copiar ao máximo o nosso mundo, levar para a tela uma fatia da vida real.

Anderson, por sua vez, cria microcosmos parecidos com a realidade, mas regidos por leis próprias, nos quais vida e morte, amor e perda têm a mesma dimensão, ainda que operando numa outra dinâmica.

O começo de seu mais novo trabalho, "Moonrise Kingdom", abre com uma música clássica sobre a qual uma voz infantil explica cada movimento, a função e a significação dos instrumentos musicais e seus sons -- tirada do "Young Person's Guide to the Orchestra" (Op. 34, Themes A-F), tocando "Moor's Revange", de Dominic Purcell.

Os filmes do diretor parecem ser assim, precisam de uma advertência: suspenda aquilo que você conhece, preste atenção, porque aqui as coisas acontecem de outra forma, e veja, vamos te explicar como é.

A paleta de cores é sempre composta por tons pastel. A imagem parece esmaecida, coberta por uma poeira do tempo que a torna pálida, envelhecida como uma polaróide maltratada pelo tempo -- graças à fotografia de Robert D. Yeoman. A trilha sonora, assinada pelo francês Alexandre Desplat, contribui para o clima onírico. O ano da história é 1965 e a localização é uma ilhazinha remota, na costa dos EUA.

No universo de Anderson, as crianças são superdotadas. Mesmo que, quando cresçam, continuem com sua mentalidade de meninos-prodígios - basta lembrar o trio de filhos dos "Tenenbaums".

Aqui, não é diferente. Suzy (Kara Hayward) parece ser muito mais madura do que seus 12 anos de idade. Encontrar em cima da geladeira da família uma cópia do livro "Como lidar com crianças extremamente problemáticas" é a gota d'água para que ela fuja de casa, juntando-se ao escoteiro Sam (Jared Gilman), que conhecera tempos antes, quando ela participava, na igreja local, de uma ópera baseada na Arca de Noé.

Essa ópera chama-se "Noye's Fludde" e foi criada por Benjamin Britten, no final dos anos 1950, para ser montada de forma amadora em igrejas. O coro é formado por animais da arca. Por isso, não é surpresa que haja um dilúvio iminente no filme, que sempre coloca os personagens em estado de alerta.

Aventura

Sam e Suzy, ambos da mesma idade, são atormentados com questões existenciais. Ela é a filha mais velha de um casal de advogados (Bill Murray e Frances McDormand) que não encontra o seu lugar na família. Não que isso seja culpa sua, não é fácil encontrar um lugar naquela casa, na qual a mãe usa um megafone para dar avisos aos filhos e ao marido.

Sam é órfão, mas essa é uma informação que o menino esconde do diretor do acampamento de escoteiros, Escoteiro Master Ward (Edward Norton). A casa onde Sam mora com os pais adotivos parece saída diretamente de algum livro de Charles Dickens, onde Sam é maltratado e explorado pelos irmãos bem mais velhos. Por isso, não é de estranhar que ele não queira voltar, nem que seus guardiões pouco se importem quando são informados de seu desaparecimento.

Sam e Suzy são como versões mirins dos personagens de Martin Sheen e Sissy Spacek em "Terra de Ninguém", de Terrence Malick - embora, é claro, as crianças não cometam nenhum crime, como no filme de Malick. Há uma cena bem parecida nos dois filmes, quando os casais dançam sozinhos no meio do nada. Aqui, é ao som de "Les Temps de l'amour", de Françoise Hardy.

Tanto num como no outro filme, a vida dos dois casais só ganha dimensão quando, finalmente, partem para a aventura. A honestidade aqui chega a ser comovente - quando vão dividir uma cabana à noite, Sam avisa a menina que "ainda molha a cama".

A arte, então, torna-se a única forma encontrada pelos personagens de Anderson para expressar aquilo que os consome. Suzy leva consigo dezenas de livros de fantasia, histórias em que, num universo mágico, meninas e mulheres libertam-se de suas opressões, especialmente as existenciais. No entanto, a liberdade das duas crianças coloca a ilha onde moram em estado de tensão.

O chefe de polícia, Sharp (Bruce Willis), começa a procurar a dupla, enquanto um intrusivo narrador, Bob Balaban, dá detalhes sobre o curioso ambiente.

Olhando de fora, parece um caos de personagens e situações, que Anderson orquestra delicadamente, dialogando com a "Nouvelle Vague" francesa, em seus cortes, justaposições e, especialmente, em seu estranhamento.

Desde o começo, está claro que se trata de uma fábula - ou seja, apenas um reflexo, um comentário sobre o mundo real, por isso não é de se estranhar coisas irreais aconteçam. É uma vida alternativa àquela que levamos, e aí reside o fascínio de "Moonrise Kingdom".

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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