ESTREIA-"7 Dias em Havana" visita sociedade cubana com humor

quinta-feira, 25 de outubro de 2012 10:45 BRST
 

SÃO PAULO, 25 Out (Reuters) - Projetos cinematográficos coletivos são sempre boas oportunidades de associar visões diferentes, mas também um risco de disparidade entre suas partes. É isso o que acontece em "7 Dias em Havana", uma coprodução entre Cuba, França e Espanha que reuniu sete diretores, apenas um deles cubano, para criar histórias ambientadas em Havana.

Exibido na mostra Un Certain Regard, de Cannes 2012, o filme estreia apenas no Rio de Janeiro.

Com crise econômica, social e política ou não, Cuba respira vida, dinamismo, "jeitinhos", boa música, beleza e sensualidade. Assim, fica difícil entender porque tantas destas histórias optaram por clichês fáceis sobre a latinidade, do mesmo tipo que costumam atingir o Brasil em alguns filmes feitos por estrangeiros, ou seja, a velha e nada boa "macumba para turista".

Dos sete segmentos, de longe o melhor é "Jam Session", assinado pelo argentino Pablo Trapero ("Abutres"), que faz bom uso do talento do diretor sérvio Emir Kusturica como ator. Ele interpreta a si mesmo numa chave bem exagerada, como o cineasta homenageado num Festival de Havana que desembarca na ilha em plena crise matrimonial. Por conta disso, bebe sem parar e dá o maior trabalho às pessoas que cuidam dele, tornando um inferno a vida de seu motorista, Alexander (Alexander Abreu).

Com jogo de cintura, Alexander ajuda Kusturica a escapar de um banquete oficial, aceitando sua companhia para a jam session a que se dirige -- e que, apesar do cenário empobrecido, num fundo de quintal frequentado inclusive por galinhas, não esconde a alta qualidade da música. Alexander, aliás, é um refinado trompetista e compositor na vida real.

Na história de Trapero infiltra-se um drama comum a tantos cubanos, o sonho de escapar para uma vida menos dura no exterior, e que é tema de outro episódio, "Doce-amargo", do cubano Juan Carlos Tabío ("Morango e Chocolate").

Os protagonistas são um casal, interpretado pelos veteranos Jorge Perugorría e Mirta Ibarra. Ele, aposentado, ela, psicóloga e reforçando o minguado orçamento familiar com seus doces, para cuja confecção convoca os esforços do marido. Mas sua filha mais velha, Cecilia (Melvis Estevez), já cansou de Cuba e agora prepara-se para fugir para Miami numa precária balsa.

Cecilia, aliás, é a protagonista da história dirigida pelo espanhol Julio Medem, "A Tentação de Cecilia", em que a moça, uma bela e talentosa cantora de cabaré, recebe uma proposta tentadora de partir para a Europa, feita por um jovem empresário alemão (Daniel Brühl), que não esconde também sua paixão por ela.

"A Fonte", do francês Laurent Cantet, acompanha o esforço insano de uma comunidade para atender a uma mãe de santo, que sonhou que teria que ser construída uma fonte no meio de sua sala, em homenagem à Virgem Maria -- como o Brasil, Cuba é pródiga no sincretismo religioso.   Continuação...