ESTREIA-Kiarostami volta a jogo de aparências em "Um Alguém Apaixonado"

quinta-feira, 8 de novembro de 2012 11:40 BRST
 

SÃO PAULO, 8 Nov (Reuters) - Enfrentando, como todos os artistas iranianos neste momento, dificuldades para produzir seu trabalho no próprio país, o cineasta Abbas Kiarostami mais uma fez filmou longe de casa, desta vez no Japão, o delicioso e envolvente "Um Alguém Apaixonado", uma coprodução franco-japonesa. O filme estreia em São Paulo.

Impressionantemente à vontade dentro do ambiente e da psicologia nipônicas, Kiarostami construiu um relato em que as aparências confundem, os fios se desfazem e o espectador é levado a deixar-se conduzir pela própria imaginação.

O mesmo jogo que ele havia realizado anteriormente em trabalhos como "Cópia Fiel", filmado na Itália, em que nunca se sabe exatamente a natureza das relações entre o casal interpretado por Juliette Binoche e William Shimell.

Em "Um Alguém Apaixonado", a história decola com Akiko (Rin Takanashi), jovem garota de programa que namora um mecânico ciumento (Ryo Kase). Uma noite, em que ela pretendia encontrar sua avó, que nada sabe sobre seu trabalho e está na estação de trem para uma brevíssima visita, Akiko é desviada para um encontro com um velho professor e tradutor (Tadashi Okuno).

A partir daí, outros personagens interferem, como a indiscreta vizinha do professor, e a relação entre ele e Akiko se modifica ao sabor de inúmeros incidentes, que fazem o espectador perder todas as suas certezas pelo caminho e até pensar: o que realmente está acontecendo aqui? Pouco importa, já que o percurso é estimulante.

A fotografia de Katsumi Yanagijima introduz cenários da cidade de Tóquio a todo momento, diretamente ou por meio de janelas, neste que é quase um road movie pela capital japonesa, passando-se boa parte dentro de carros - outro cenário tão ao gosto de Kiarostami, como se viu em "Gosto de Cereja" (sua Palma de Ouro em Cannes, em 1997) e "Dez".

Até por intrigar tanto, "Um Alguém Apaixonado" é o tipo de filme que melhora quanto mais se pensa nele - que é a melhor viagem que se pode fazer no encontro com uma obra de arte. O título refere-se a uma bela canção jazzística, interpretada por Ella Fitzgerald na trilha sonora.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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