ESTREIA-"Argo" recria trama de falso filme para salvar reféns no Irã em 1980

quinta-feira, 8 de novembro de 2012 14:47 BRST
 

SÃO PAULO, 8 Nov (Reuters) - Com fortes chances de integrar a lista de indicados a melhor filme na 85a edição do Oscar, "Argo", dirigido e estrelado por Ben Affleck ("Atração Perigosa"), traz às telas um acerto de contas com o passado recente dos Estados Unidos.

Com base em fatos reais, o longa mostra como foi engenhoso o resgate de seis diplomatas norte-americanos refugiados na embaixada canadense no turbulento Irã, em 1980.

Para o espectador entender o contexto, Affleck oferece no início da projeção uma narrativa em quadrinhos sobre como os EUA ajudaram o xá Mohammad Reza Pahlavi a governar, a partir de interesses econômicos, até sua deposição em 1979 pelo célebre aiatolá Khomeini. O asilo político oferecido a Reza Pahlavi enfureceu a população iraniana na época, que via no antigo xá um criminoso a ser julgado.

Após a negativa do pedido de extradição do xá, as ruas iranianas foram tomadas por protestos, que culminariam na invasão da embaixada dos EUA em Teerã. Esse foi o ponto de partida da histórica "crise dos reféns" (1979-1981), em que os seguidores de Khomeini mantiveram presos, por 444 dias, 52 norte-americanos em retaliação à presença do antigo xá em território dos EUA.

"Argo", no entanto, conta o que aconteceu com os seis diplomatas que conseguiram escapar à invasão. Escondidos na embaixada do Canadá, esperavam que a inteligência norte-americana os tirasse de lá o mais rápido possível. Como não havia condições de se iniciar uma guerra contra o Irã, apelou-se para formas pouco ortodoxas para recuperar estes cidadãos.

Nesse momento, entra em cena o oficial da CIA Tony Mendez (Affleck), que coordena um resgate rocambolesco. Para entrar no país disfarçado, contrata os serviços do produtor de cinema John Chambers (John Goodman) e do diretor Lester Siegel (Alan Arkin) para criarem um falso filme "Argo", cuja história de ficção científica poderia ter como set de filmagens o exótico Irã.

Com aprovação dos mais altos oficiais do governo, Mendez patrocina o anúncio do filme, com contratação de atores, publicidade e até coletiva de imprensa internacional, enquanto supostamente busca locações para sua pretensa empreitada. Um jogo de cena para provar ao Ministério da Cultura do Irã que precisa entrar no país, junto com sua equipe, sob disfarce.

Apesar de ser uma dramatização, todo o roteiro é extraído de arquivos secretos, só revelados a público durante o governo de Bill Clinton, em meados dos anos 2000. E Affleck consegue trazer à tela o drama, com uma direção competente, ao mesmo tempo em que diverte pelas ironias ao mundo ilusório hollywoodiano, perspectiva à qual está muito acostumado.

Sem esmiuçar demais os conflitos político, social ou mesmo cultural que evoca, "Argo" constrói uma narrativa tensa, apesar do alívio cômico proporcionado por Arkin e Goodman. O roteiro dá créditos e homenagens aos norte-americanos esquecidos pelo lacre do segredo de Estado, mas, por outro lado, apenas brutaliza os iranianos da época.

(Por Rodrigo Zavala, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Diretor e membro do filme "Argo", Ben Affleck posa na estreia do filme na Academy of Motion Picture Arts and Sciences em Beverly Hills, Califórnia. Com fortes chances de integrar a lista de indicados a melhor filme na 85a edição do Oscar, "Argo", dirigido e estrelado por Ben Affleck ("Atração Perigosa"), traz às telas um acerto de contas com o passado recente dos Estados Unidos. 04/10/2012 REUTERS/Mario Anzuoni