14 de Novembro de 2012 / às 19:09 / 5 anos atrás

ESTREIA-"E agora, aonde vamos?" mostra a mulher como único lado para a paz

SÃO PAULO, 14 Nov (Reuters) - A diretora franco-libanesa Nadine Labaki fez um "experimento" numa aldeia de uma região árida do Líbano para tentar entender como as relações humanas podem ser envenenadas pelos motivos mais banais e transformar a convivência harmônica em verdadeiro campo minado.

Como cristãos e muçulmanos daquela região, que sempre conviveram pacificamente e mantiveram relações de amizade sincera, podem, ao riscar de uma fagulha, se transformar em inimigos mortais.

"E agora, aonde vamos?", que estreia nesta quinta-feira em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Salvador, explora de forma engenhosa, com atores não profissionais e doses de humor, como o partidarismo político e as crenças religiosas podem ser um combustível poderoso na destruição da paz, principalmente numa região tão sensível a essas disputas, como o Oriente Médio.

E, de forma curiosa, como ficar ao largo dos problemas --como se eles não existissem-- pode ser a solução para que não se manifestem.

Pois foi o que ocorreu numa aldeia libanesa que, logo nas primeiras imagens, mostra a excitação dos habitantes com a instalação de um aparelho de TV comunitário que, como todos esperam, trará alguma novidade à vida modorrenta que levam.

Num território que ainda possui minas terrestres enterradas --lembrança do clima bélico do passado que parece superado, ou em estado de hibernação, como veremos mais adiante-- um pouco de diversão não faz mal a ninguém, não é mesmo?

Na prática não é bem isso o que ocorre, pois, junto com os programas de entretenimento, a TV também mostra o noticiário político, com os enfrentamentos armados entre cristãos e muçulmanos em outras regiões. As mulheres querem mudar de canal, pois sabem que o ambiente em que vivem pode ser contaminado pelas imagens da guerra.

Na pequena aldeia coexistem na praça central uma mesquita e um templo católico, ponto de encontro dos moradores quando se dirigem para as orações. Bem perto do único bar local, que está sendo reformado por Amale (a própria diretora Nadine Labaki) e outro ponto de encontro apartidário. Todos se conhecem há várias gerações e não existe motivo para desentendimentos.

Mas o noticiário da TV parece ter despertado nos homens aquele germe belicista que estava adormecido. Vizinhos começam a brigar, adolescentes se desentendem, enquanto as mulheres se preocupam com essa escalada.

Elas sabem o que é perder um filho ou o marido pelas armas e não querem que isso se repita. Não à toa, logo no início, elas marcham para o cemitério para limpar as lápides de seus parentes, todos homens e jovens.

Um dia, a mesquita é invadida pelos animais de criação, enfurecendo os muçulmanos que culpam os cristãos pela heresia. Em represália, os muçulmanos quebram a imagem de uma santa. Falta pouco para que cada lado pegue em armas e inicie a matança.

E é nesse ponto que as mulheres decidem agir, tentando trazer racionalidade para a discussão. As soluções encontradas apresentam um alívio cômico à tensão reinante, mas tornam o filme irregular.

Nadine envereda por vários caminhos insólitos e torna a trama cada vez mais rocambolesca. Há certo clima de "Pantaleão e as visitadoras" (romance do peruano Mario Vargas Llosa, que também foi adaptado para o cinema) e semelhança com "Lisístrata", de Aristófanes, no qual as mulheres fazem greve de sexo para forçar atenienses e espartanos a obter a paz.

Nessa aldeia libanesa, elas não pensam numa estratégia tão radical, mas o que farão vai mexer com a testosterona de seus maridos e filhos e dar a eles outras preocupações, além de desenterrar as armas.

(Por Luiz Vita, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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