ESTREIA-"Infância Clandestina" resgata memória infantil na ditadura argentina

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012 10:53 BRST
 

SÃO PAULO, 6 Dez (Reuters) - A partir de "Infância Clandestina", drama de estreia do diretor argentino Benjamin Ávila, uma coprodução entre Argentina e Brasil, pode-se traçar inúmeras relações, históricas e cinematográficas.

As memórias de uma ditadura militar, vistas pelo olhar de uma criança, foram objeto de diversos filmes recentes, como o brasileiro "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (2006), de Cao Hamburger, o argentino "Kamchatka" (2002), de Marcelo Piñeyro, e também o chileno "Machuca" (2004), de Andrés Wood.

Todos, por coincidência, indicados para representar seus países nas indicações ao Oscar de filme estrangeiro, situação que se repete este ano com "Infância Clandestina", pela Argentina.

O filme, aliás, acaba de sagrar-se como grande vencedor na premiação da Academia Argentina, com dez troféus, inclusive melhor filme e direção e também premiando dois brasileiros: Marcelo Müller, corroteirista, e Gustavo Giani, montador.

Se não é novo o tema, no entanto, "Infância Clandestina" guarda como diferencial um vigor muito particular na reconstituição do cotidiano de uma família, no caso, de Juan (Teo Gutierrez Romero).

Com 12 anos, Juan vive ao lado dos pais, Horácio (César Troncoso) e Cristina (Natalia Oreiro), um casal de Montoneros que retorna à Argentina em 1979, ano em que o grupo armado peronista inicia uma grande contra-ofensiva contra a ditadura instalada três anos antes. Completa a família o bebê Vicky, garotinha com menos de um ano.

Uma rotina nervosa pesa sobre o clã, que se instala numa cidade pequena, unido também ao irmão de Horácio, Beto (Ernesto Alterio), sob a fachada de um comércio de chocolates. Juan vai à escola, mas antes tem que decorar uma nova história pessoal, que inclui um nome falso, Ernesto - homenagem ao Che Guevara.

O dia a dia é tenso, regido por normas de segurança que incluem vendar os visitantes, que entram na casa ocultos sob as caixas de chocolate numa caminhonete. As reuniões do grupo são realizadas a portas e janelas fechadas, sob a atenta observação de Juan, que se torna os olhos e ouvidos da plateia.

Mesmo militantes apaixonados, os pais e o tio nunca descuidam das funções afetivas, compondo o retrato de uma família intensamente próxima que será completada por uma imprevista visita da avó, Amália (Cristina Banegas) - que se torna, igualmente, a voz de um questionamento àquele modo de vida, insistindo em levar as crianças com ela, sem êxito. Os pais não abrem mão de criar os filhos, mesmo no imenso perigo que todos correm.   Continuação...