24 de Dezembro de 2012 / às 14:22 / em 5 anos

Tarantino desenterra tormentos da escravidão nos EUA em 'Django Livre'

O diretor Quentin Tarantino posa para retrato enquanto promove seu filme "Django Livre", em Nova York. 16/12/2012 REUTERS/Carlo Allegri

Por Piya Sinha-Roy

LOS ANGELES, 24 Dez (Reuters) - Vinte anos depois de Quentin Tarantino ter lançado seu primeiro filme, “Cães de Aluguel”, o diretor voltou os olhos para a história da escravidão nos Estados Unidos em “Django Livre”, uma história de vingança repleta de sangue, no estilo que é a sua marca.

Tarantino, de 49 anos, tornou-se sinônimo de violência e humor negro, enfrentando nazistas em “Bastardos Inglórios” e mafiosos em “Pulp Fiction”.

Em “Django Livre”, com estreia prevista nos EUA no dia de Natal, ele combina um faroeste de ação e aventura, incluindo caubóis, com uma narrativa de vingança racial ambientada no século 19, antes da abolição da escravidão nos Estados Unidos.

O ator Jamie Foxx faz um escravo cuja liberdade é comprada por um ex-dentista, interpretado por Christoph Waltz. Os dois se lançam como caçadores de recompensas, atrás de assaltantes e ladrões de gado, até voltarem sua atenção para fazendeiros brutais no interior do Sul dos Estados Unidos.

Tarantino é bem versado na encenação de violência, mas disse que enfrentou “bastante ansiedade” ao filmar as cenas de escravidão. Ele já começou sob o fogo de alguns críticos por causa do uso freqüente no filme de um insulto racial dirigido a negros.

O diretor declarou que inicialmente hesitou em pedir a atores negros que interpretassem escravos acorrentados e chicoteados, e até mesmo chegou a pensar em filmar fora dos Estados Unidos.

Mas um jantar com o veterano ator Sidney Poitier, premiado com o Oscar, e a quem Tarantino chamou de “figura paterna”, o fez mudar de ideia depois de Poitier lhe pedir para não “ter medo” de seu filme.

“Este filme é uma profunda, profunda, profunda história americana, e que precisava ser feito por um americano, e precisava de astros americanos. ... Muitos dos filmes que lidam com esta questão têm geralmente britânicos no papel de sulistas e criam esse distanciamento”, disse Tarantino.

Grande parte das cenas de escravidão mais chocantes, como lutas até a morte no estilo dos gladiadores e pessoas colocadas em uma caixa de metal sob o sol quente da região sul, foram extraídas de relatos verdadeiros.

“Nós estávamos filmando em solo sagrado. Este foi o terreno de nossos antepassados​​. ... O sangue deles estava na grama, ainda há pedaços de carne cravadas nos caules”, disse Tarantino.

O filme tem obtido boas críticas e deve ser forte concorrente ao Oscar, após ter recebido cinco indicações ao Globo de Ouro.

Com a exceção de Waltz, que interpreta o excêntrico caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz, os principais atores são americanos, e do Sul.

Tarantino se uniu novamente a Waltz, que ganhou um Oscar em 2010 por seu papel como um oficial nazista ameaçador em “Bastardos Inglórios”, e ao colaborador de longa data Samuel L. Jackson, que interpreta o escravo Stephen, um personagem que Tarantino descreveu como o (personagem) “preto mais desprezível” na história do cinema.

O papel que tem sido mais comentado é o de Leonardo DiCaprio, com seu primeiro vilão, como um proprietário racista de uma plantação -- um grande contraste com seu papel de galã em “Titanic” e de norte-americanos excêntricos em “O Aviador” e “J. Edgar”.

Quando lhe perguntaram como se sentia ao ser o primeiro diretor a fazer de DiCaprio um vilão, Tarantino riu e respondeu que se sentia “muito bem”. Ele elogiou a atuação de DiCaprio como um “Calígula” do Sul, referindo-se ao tirânico imperador romano.

“Eu o vi como um imperador menino petulante .... Ele não tem nada além de passatempos hedonistas e vícios para se saciar, e é quase como se ele estivesse apodrecendo por dentro”, disse Tarantino.

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