ESTREIA-Premiado "O Som ao Redor" captura contradições sociais do Brasil

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013 13:49 BRST
 

SÃO PAULO, 3 Jan (Reuters) - Em "O Som ao Redor", primeiro longa de ficção do crítico e cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, as tensões e contradições sociais do Brasil se materializam nos barulhos que cada camada da sociedade é capaz de fazer.

O que nos define é o som que somos capazes de produzir, e não aquele que somos obrigados a ouvir. É nesse sentido que se dão a luta de classes e o abismo social.

Premiado em diversos festivais --Roterdã, Rio, Gramado, entre outros-- "O Som ao Redor" foi escolhido pelo jornal norte-americano "The New York Times" como um dos melhores filmes do ano passado, sendo definido, na crítica no periódico, como "revelador".

Não é para menos. O diretor, que também assina o roteiro, capta com sagacidade as contradições de uma sociedade que vive sob os resquícios de um sistema opressivo e desigual e resiste a superar o coronelismo.

O cenário é Recife, mas poderia ser qualquer centro urbano brasileiro devorado por prédios e especulação imobiliária, onde o Estado parece não ter mais função e a sociedade civil toma para si algumas das obrigações do governo, como a segurança.

A chegada de um grupo de profissionais da área, liderado por Clodoaldo (interpretado com perfeição por Irandhir Santos), traz a desestabilização da ordem, na qual o rico proprietário Francisco (W. J. Solha, de "Era uma Vez Eu, Veronica") exerce o mando como uma espécie de poderoso chefão do bairro.

De certa forma, Francisco simboliza todos aqueles "coronéis" típicos de um antigo Nordeste, que mandam e desmandam, passando por cima de tudo, afinal, têm o dinheiro e, consequentemente, o poder. Uma cena, que poderia ser quase banal, é a prova e o símbolo desse poder que tudo ignora e desafia, quando o personagem, em um passeio noturno, entra no mar exatamente onde há uma placa onde se lê: "Cuidado: área sujeita a tubarões".

Francisco começa a dividir responsabilidades com seus descendentes. O mais indicado é o neto mais velho, João (Gustavo Jahn, de "Os Residentes"), agente imobiliário que começa um namoro com Sofia (Irma Brown).

O mais revelador sobre o personagem é a peculiar relação dele com sua empregada. Há uma autêntica amizade entre eles -- ele nem se importa quando os netos pequenos dela tomam conta de sua casa. Mas quais os limites dessa liberdade?   Continuação...