ESTREIA-Campeão de indicações a Oscar, "Lincoln" traça retrato ambíguo e realista

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013 14:18 BRST
 

SÃO PAULO, 24 Jan (Reuters) - Algumas coisas parecem óbvias antes mesmo que as primeiras imagens de "Lincoln" batam na tela. Que outro diretor mais adequado poderia comandar a cinebiografia definitiva de um dos maiores presidentes norte-americanos senão o consagrado e grandiloquente Steven Spielberg?

Que outro ator mais perfeccionista do que o, ironicamente, britânico Daniel Day-Lewis, para encarnar o personagem de Abraham Lincoln?

O público pode compartilhar também a fortíssima expectativa de que o filme, campeão de indicações no Oscar (com 12), sairá de sua cerimônia de premiação, no dia 24 de fevereiro, de posse dos mais cobiçados troféus, como filme, diretor e ator (disputa também fotografia, figurino, montagem, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, trilha sonora, desenho de produção, mixagem de som e roteiro adaptado).

A partir destas certezas, no entanto, a narrativa de "Lincoln" toma alguns caminhos imprevistos. Se é uma cinebiografia enraizada no culto ao mítico presidente ligado à libertação dos escravos, não falta à história um pragmatismo um tanto cínico que não se costuma esperar de Spielberg quando adentra um território sagrado da nacionalidade norte-americana como este.

É fato que "Lincoln" é pensado para o público interno e que as plateias internacionais, naturalmente pouco familiarizadas com as minúcias da história dos EUA, terão dificuldades em situar episódios e personagens nos devidos lugares. Pensando nisso, e também nos desatentos às aulas na escola, Spielberg distribui, aqui e ali, letreiros para identificar algumas figuras-chave.

O roteiro de Tony Kushner ("Angels in America", "Munique"), baseado parcialmente em livro da historiadora Doris Kearns Goodwin, focaliza o dramático ano de 1865, quando o exaurimento do sul dos EUA prenunciava o fim da Guerra de Secessão.

Ao mesmo tempo, uma luta, por assim dizer, não menos selvagem, começava dentro do Congresso dos EUA, pela aprovação da 13a emenda, que definiria a libertação dos escravos, assunto que também estava por trás da guerra, já que a economia sulista baseava-se na agricultura dependente dessa mão-de-obra.

Reeleito para um segundo mandato, o republicano Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) luta nos dois fronts. Quer terminar a guerra, que tantas vidas já custou, e eliminar a escravidão. Se há uma boa razão para assistir ao filme, certamente é a composição perfeita que o ator inglês faz do presidente norte-americano, aproximando-o do público ao retratá-lo com autenticidade, a começar por uma impressionante semelhança física na caracterização.

Uma esperteza do roteiro é contrapor as complicações entediantes da luta pela aprovação da emenda no Congresso com diversas cenas em que se pode observar o homem Lincoln, não só o presidente, em ação.   Continuação...

 
Protagonista do filme “Lincoln” Daniel Day-Lewis durante sessão de fotos para promover o filme em Madri. 16/01/2013 REUTERS/Susana Vera