24 de Janeiro de 2013 / às 15:48 / em 5 anos

ESTREIA-Campeão de indicações a Oscar, "Lincoln" traça retrato ambíguo e realista

SÃO PAULO, 24 Jan (Reuters) - Algumas coisas parecem óbvias antes mesmo que as primeiras imagens de “Lincoln” batam na tela. Que outro diretor mais adequado poderia comandar a cinebiografia definitiva de um dos maiores presidentes norte-americanos senão o consagrado e grandiloquente Steven Spielberg?

Protagonista do filme “Lincoln” Daniel Day-Lewis durante sessão de fotos para promover o filme em Madri. 16/01/2013 REUTERS/Susana Vera

Que outro ator mais perfeccionista do que o, ironicamente, britânico Daniel Day-Lewis, para encarnar o personagem de Abraham Lincoln?

O público pode compartilhar também a fortíssima expectativa de que o filme, campeão de indicações no Oscar (com 12), sairá de sua cerimônia de premiação, no dia 24 de fevereiro, de posse dos mais cobiçados troféus, como filme, diretor e ator (disputa também fotografia, figurino, montagem, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, trilha sonora, desenho de produção, mixagem de som e roteiro adaptado).

A partir destas certezas, no entanto, a narrativa de “Lincoln” toma alguns caminhos imprevistos. Se é uma cinebiografia enraizada no culto ao mítico presidente ligado à libertação dos escravos, não falta à história um pragmatismo um tanto cínico que não se costuma esperar de Spielberg quando adentra um território sagrado da nacionalidade norte-americana como este.

É fato que “Lincoln” é pensado para o público interno e que as plateias internacionais, naturalmente pouco familiarizadas com as minúcias da história dos EUA, terão dificuldades em situar episódios e personagens nos devidos lugares. Pensando nisso, e também nos desatentos às aulas na escola, Spielberg distribui, aqui e ali, letreiros para identificar algumas figuras-chave.

O roteiro de Tony Kushner (“Angels in America”, “Munique”), baseado parcialmente em livro da historiadora Doris Kearns Goodwin, focaliza o dramático ano de 1865, quando o exaurimento do sul dos EUA prenunciava o fim da Guerra de Secessão.

Ao mesmo tempo, uma luta, por assim dizer, não menos selvagem, começava dentro do Congresso dos EUA, pela aprovação da 13a emenda, que definiria a libertação dos escravos, assunto que também estava por trás da guerra, já que a economia sulista baseava-se na agricultura dependente dessa mão-de-obra.

Reeleito para um segundo mandato, o republicano Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) luta nos dois fronts. Quer terminar a guerra, que tantas vidas já custou, e eliminar a escravidão. Se há uma boa razão para assistir ao filme, certamente é a composição perfeita que o ator inglês faz do presidente norte-americano, aproximando-o do público ao retratá-lo com autenticidade, a começar por uma impressionante semelhança física na caracterização.

Uma esperteza do roteiro é contrapor as complicações entediantes da luta pela aprovação da emenda no Congresso com diversas cenas em que se pode observar o homem Lincoln, não só o presidente, em ação.

Mistura complexa de homem rude, de origem pobre, advogado interiorano e astuto animal político com capacidade quase infinita para ouvir, esse Lincoln de carne e osso emerge das conversas que ele mantém com soldados no front, que visita regularmente, e também com as pessoas comuns que diariamente fazem fila nos corredores da Casa Branca.

Em busca de soluções para problemas corriqueiros, esses cidadãos são brindados com um contato direto com o presidente que, em troca, consulta-os sobre os assuntos espinhosos da nação que tiram seu sono à noite.

A primeira-dama, Mary (Sally Field), apresenta-se como uma figura ambígua. Se por um lado é uma mulher doentia e nervosa, que desafia a tendência do marido ao isolamento doméstico, por outro funciona também como seus olhos e ouvidos na batalha que se trava no Congresso.

É nesse front que, finalmente, o filme expõe sua tese mais delicada, ao retratar como o presidente não hesitou em colocar secretamente três intermediários (James Spader, Tim Blake Nelson e John Hawkes) na cola dos parlamentares democratas que não haviam sido reeleitos, portanto, prestes a terminar seus mandatos, oferecendo-lhes empregos em troca de votos a favor da emenda.

Nesse jogo de ética tortuosa, mas indispensável à aprovação apertada da emenda, Lincoln jogou tudo e venceu, ainda que não vivesse mais do que alguns meses para desfrutar de sua vitória e seu legado, impedido, portanto, de reconstruir a nação, como pretendia. (Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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