ESTREIA-Herzog mostra segredos primitivos em "A Caverna dos Sonhos Esquecidos"

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013 16:21 BRST
 

SÃO PAULO, 24 Jan (Reuters) - O documentário "A Caverna dos Sonhos Esquecidos", de Werner Herzog, foi a grande sensação da 35a Mostra Internacional de Cinema, em 2011. Quem perdeu as poucas exibições realizadas na época, terá agora a oportunidade de matar a curiosidade e se deslumbrar com uma inesquecível viagem ao centro da Terra, conduzida pelo cineasta alemão.

Filmado em 3D (como "Pina", de seu conterrâneo Wim Wenders), o documentário é a única oportunidade de que dispomos para conhecer o verdadeiro tesouro arqueológico e artístico contido nas profundezas das cavernas de Chauvet-Pont-d'Arc, em Vallon-Pont-d'Arc, no sul da França.

Fechada à visitação pública, seu acesso é restrito a um número reduzido de pesquisadores. Tal precaução não é exagerada: nas paredes da caverna se encontram desenhos rupestres com aproximadamente 32 mil anos de existência, gravadas pelos habitantes primitivos com pedaços de carvão.

Como no filme de Wim Wenders, o 3D se mostrou um grande aliado do espectador. Se em "Pina", os óculos especiais aproximaram ainda mais as belas coreografias de Pina Bausch de nossos olhos, no filme de Herzog temos a sensação de caminhar ao lado da equipe de cientistas e de técnicos de cinema e quase poder tocar as paredes.

Iluminadas pelos técnicos, surgem figuras surpreendentemente bem conservadas de cavalos, rinocerontes, leões das cavernas (que não possuíam jubas), leopardos e até uma única imagem humana, a parte inferior de um corpo feminino.

Mas, ao contrário dos afrescos romanos descobertos durante os trabalhos de escavação dos túneis de metrô em Roma (mostrados em "Roma", de Federico Fellini), as frágeis imagens não desaparecem ao serem iluminadas; saltam aos olhos, com grande riqueza de detalhes.

Completamente vedado, abrigado há cerca de 30 mil anos da luz solar, o ambiente é "decorado" por estalactites, que formam cascatas e cortinas de sedimentos minerais, graças às gotas de água que pingam pacientemente há milhares de anos. A pouca iluminação é fornecida apenas pelas luminárias especiais usadas pela equipe de filmagem e pelas lanternas dos pesquisadores.

O percurso é narrado de forma contida, mas nitidamente emocionada, pelo próprio Herzog, que lidera apenas três membros de sua equipe técnica. Ao longo do trajeto, ele entrevista os pesquisadores que o acompanham e revela detalhes das técnicas utilizadas na confecção dos desenhos, com pedaços de carvão e à luz de tochas. Em algumas paredes, ficou gravada a palma da mão de um frequentador da caverna (autor das obras?), identificado por um dedo torto.

Se para os cientistas, a caverna é um laboratório permanente de estudos, para o cineasta é quase uma catedral, que guarda em seus labirintos escuros uma herança de medos e sonhos de quem chegou antes de nós.

(Por Luiz Vita, do Cineweb)

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