ESTREIA-Documentário de José Padilha disseca suspeita de crimes contra ianomâmis da Venezuela

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013 13:27 BRT
 

SÃO PAULO, 20 Fev (Reuters) - Polêmicas sempre estão na alça de mira do cineasta carioca José Padilha, ao longo de uma cinematografia premiada, que inclui ficções, como "Tropa de Elite" (2007), e documentários, como "Ônibus 174" (2002), "Garapa" (2009) e o mais recente, "Segredos da Tribo" --que, apesar de realizado em 2010, quando estreou em festivais como Sundance, nos EUA, e É Tudo Verdade, no Brasil, somente agora chega às salas de cinema do País.

Coprodução entre o Brasil e Inglaterra, "Segredos da Tribo" investiga um escândalo que, há décadas, divide a comunidade científica internacional.

As suspeitas giram em torno das dramáticas acusações contra alguns de seus integrantes, como o sócio-biólogo norte-americano Napoleon Chagnon e o linguista francês Jacques Lizot, acusados de manipulação médica, pedofilia, exploração de prostituição e até genocídio, em sua atuação na expedição pioneira à até então isolada comunidade ianomâmi, no sul da Venezuela, em 1968.

Financiada pela Comissão de Energia Atômica dos EUA, a expedição, chefiada pelo geneticista James V. Neel, já falecido, teria como real missão uma pesquisa médica, junto a um grupo humano até então não exposto à radiação, poluição ou doenças epidemiológicas.

Por isso, à parte dos estudos antropológicos e linguísticos, foram coletadas amostras de sangue, saliva, e outros materiais dos indígenas.

O documentário dedica-se a mapear exaustivamente o impacto desta expedição junto aos índios, que também são entrevistados, dando depoimentos contundentes sobre a exploração sexual de meninos no passado por parte de Lizot --que, procurado pelo cineasta, não quis dar entrevistas, ao contrário de Chagnon e outros acusados.

Sem ser o primeiro filme a abordar o tema incendiário --já retratado em parte em outros trabalhos, como "Napëpë", de Nadja Marin, que chegou a acusar Padilha de "plágio"--, "Segredos da Tribo" cumpre seu papel de levantar várias faces da polêmica, que, em última análise, coloca em xeque uma postura arrogante não raro observada na ciência, quando se reveste de uma aura de poder, vaidade e espírito de corpo.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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