ESTREIA-"Na Neblina" reafirma boa fase do cinema da Europa do Leste

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013 12:15 BRT
 

SÃO PAULO, 28 Fev (Reuters) - Com a habitual economia narrativa e uma contundência mais sóbria do que sua estreia ficcional, "Minha Felicidade" (2010), o diretor e documentarista bielorrusso Sergei Loznitsa realiza outra obra de impacto em "Na Neblina".

O drama concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2012, no qual venceu o prêmio de melhor filme para a Federação Internacional dos Críticos (FIPRESCI).

O próprio Loznitsa assina também o roteiro, que parte do romance de Vasili Bykov e retrata o dilema do ferroviário Sushenya (Vladimir Svirskiy). Em plena Segunda Guerra, em 1942, numa região da URSS ocupada pelos nazistas, ele foi capturado depois de uma ação de sabotagem, junto com vários colegas.

Perversamente, o comandante nazista Grossmeier (Vlad Ivanov, de "Quatro Semanas, Três Meses e Dois Dias") poupa-lhe a vida e o solta, o que leva a resistência soviética a suspeitar que se trata da recompensa a um traidor.

Impotente contra a situação, Sushenya volta para casa, ao lado da mulher e dos filhos, e fica à espera. Não demoram a chegar dois militantes da resistência, seus velhos conhecidos Burov (Vladislav Abashin) e Voitik (Sergei Kolesov), que vêm para executá-lo na floresta.

Resignado, embora jure inocência, Sushenya os acompanha. Na floresta, a situação sofre uma reviravolta, fornecendo uma nova oportunidade para observar a peculiar ética do ferroviário, simbolizando a força ancestral dos camponeses, à qual não falta, apesar do aparente conformismo, uma forma incomum de coragem.

Mantendo o espectador tão no escuro quantos estes personagens, perdidos na floresta diante de um inimigo sem rosto, Loznitsa constrói um relato tenso, que se revela aos poucos, requerendo participação ativa de quem assiste. A guerra que interessa ao diretor é também e especialmente aquela que se trava no coração dos homens.

A partir deste tenso enredo mínimo, o cineasta elabora um relato moral que evoca o melhor da literatura russa, com toques entre Dostoievski e Tchekhov, e que tira muito bom partido de um elenco quase todo pouco experiente, caso inclusive do magnético protagonista Vladimir Svirskiy.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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