ESTREIA-Irmãos Taviani filmam crônica shakespeariana em "César Deve Morrer"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013 15:12 BRT
 

SÃO PAULO, 28 Fev (Reuters) - Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim 2012, "César Deve Morrer" não parece um filme feito por dois diretores octogenários, no caso, os irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani.

Filmando juntos há quase 60 anos, donos de uma Palma de Ouro em Cannes por "Pai Patrão" (1977) e várias obras que os consagraram, como "Allonsanfan" (1974), "Kaos" (1984) e "Bom Dia Babilônia" (1987), eles realizaram aqui seu primeiro filme em digital, quase inteiramente em preto-e-branco e, o que é mais inusitado ainda, escolheram como elenco detentos da prisão de segurança máxima Rebibbia, nos arredores de Roma.

A imensa prisão, aliás, é também o cenário da maior parte deste docudrama, que acompanha uma montagem da peça "Júlio César", de William Shakespeare, por um grupo de prisioneiros.

Contando com a parceria de um diretor teatral, Fabio Cavalli --creditado como corroteirista--, os Taviani lançam-se a esta experiência, começando pela escolha dos intérpretes. Colada ao rosto dos candidatos, a quem se pede apenas que digam seus nomes e de onde vêm, a câmera parece entrar por debaixo de sua pele e expor a impressionante afinidade entre seus semblantes marcados e a trama da peça, calcada na conspiração para assassinar o imperador Júlio César.

Habilmente, os Tavianis exploram esse apagamento da fronteira entre vida e arte, entre realidade e encenação, usando o próprio ambiente da prisão como cenário principal, já que o filme se ocupa principalmente dos ensaios da peça.

As paredes nuas e descascadas, a luz natural que escoa de janelas gradeadas, os altos muros transformam-se sem artifício nos corredores do Fórum Romano e dos palácios da ficção, sem que para isso o espectador precise mais do que acompanhar a impressionante dedicação de seus intérpretes -- confirmando que neste lugar, em que toda a esperança parece perdida, pode igualmente renascer a essência de um teatro que se aproxime da complexidade da vida.

Ficam na memória as performances de Salvatore Striano, como Brutus, Cosimo Rega, como Cássio, e Giovanni Arcuri, como César, todos eles homens que têm nas costas crimes como assassinato ou tráfico. Não há como deixar de pensar na inquietante ambiguidade da natureza humana.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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