ESTREIA-"Anna Karenina" materializa no teatro o jogo das convenções sociais

quinta-feira, 14 de março de 2013 12:18 BRT
 

SÃO PAULO, 14 Mar (Reuters) - Todas as heroínas românticas são iguais, as trágicas são trágicas cada uma à sua maneira. As infiéis recebem a devida punição como nos clássicos "O Primo Basílio", do português Eça de Queiroz, e no francês "Madame Bovary", de Gustave Flaubert.

Em "Anna Karenina", de 1873, seu autor, o russo Liev Tolstói, contrapôs a protagonista heroína-trágica, com um herói romântico, chamado Levin. Sua ideia era o retrato de dois casamentos -- o feliz e o infeliz, daí a célebre frase de abertura: "Todas as famílias felizes são iguais, as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira".

Dirigido pelo inglês Joe Wright ("Orgulho e Preconceito", "Desejo e Reparação"), o filme segue à risca esse retrato de dois casamentos, que passam por provações até atingirem seus destinos anunciados. Até agora, em suas adaptações, o diretor havia se mantido fiel às fontes literárias -- Jane Austen e Ian McEwan, respectivamente. Ao contrário, em "Anna Karenina" ele deixou o pudor de lado e mostrou-se bem mais criativo, até mesmo ousado.

O longa se passa, em boa parte, dentro de um teatro. No entanto, a movimentação de câmera e a montagem são capazes de transpor as barreiras que poderiam transformar o filme num teatro filmado. Pode, por um lado, soar como uma metáfora óbvia: a vida da alta sociedade não passa de uma encenação. Ao mesmo tempo, ao transpor as limitações técnicas e narrativas, o diretor é capaz de dar fôlego e espanar a poeira de um filme de época.

A ambição --bem-sucedida em boa parte-- encontra apenas alguma limitação em Keira Knightley, atriz especializada em filmes de época e fetiche do diretor, figurando no elenco de suas duas outras adaptações. Ainda assim, ela não compromete o resultado final, apesar de atravessar as pouco mais de duas horas de "Anna Karenina" com a mesma cara -- aquelas mesmas expressões faciais de quando fez Elizabeth Benneth, heroína do século 17 de "Orgulho e Preconceito", e Cecilia Tallis, personagem do século 20 que protagoniza "Desejo e Reparação".

Apesar de ser a personagem-título de "Anna Karenina", a trama do longa está um tanto dissolvida, de modo que o peso da responsabilidade não recai sobre seus frágeis ombros. Anna, mulher casada com um homem mais velho, o conde Karenin (Jude Law), encontra o amor que faltava em sua vida nos braços de um oficial da cavalaria, o conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson).

Paralelamente, Levin (Domhnall Gleeson), um fazendeiro apaixonado pela mimada Kitty (Alicia Vikander), tenta conquistar o seu amor, mas ela, garota da cidade, não o vê com bons olhos.

FUNDO HISTÓRICO

A partir de uma trama quase banal de amor e traição, Tolstói traça um painel da Rússia czarista prestes a ruir.   Continuação...

 
Atriz Keira Knightley posa para retrato ao promover o filme "Anna Karenina", em Los Angeles, Califórnia, novembro de 2012. Dirigido pelo inglês Joe Wright ("Orgulho e Preconceito", "Desejo e Reparação"), o filme estreia hoje no Brasill.13/11/2012 REUTERS/Mario Anzuoni