14 de Março de 2013 / às 14:07 / em 5 anos

ESTREIA-"Anna Karenina" materializa no teatro o jogo das convenções sociais

Atriz Keira Knightley posa para retrato ao promover o filme "Anna Karenina", em Los Angeles, Califórnia, novembro de 2012. Dirigido pelo inglês Joe Wright ("Orgulho e Preconceito", "Desejo e Reparação"), o filme estreia hoje no Brasill.13/11/2012 REUTERS/Mario Anzuoni

SÃO PAULO, 14 Mar (Reuters) - Todas as heroínas românticas são iguais, as trágicas são trágicas cada uma à sua maneira. As infiéis recebem a devida punição como nos clássicos “O Primo Basílio”, do português Eça de Queiroz, e no francês “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert.

Em “Anna Karenina”, de 1873, seu autor, o russo Liev Tolstói, contrapôs a protagonista heroína-trágica, com um herói romântico, chamado Levin. Sua ideia era o retrato de dois casamentos -- o feliz e o infeliz, daí a célebre frase de abertura: “Todas as famílias felizes são iguais, as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.

Dirigido pelo inglês Joe Wright (“Orgulho e Preconceito”, “Desejo e Reparação”), o filme segue à risca esse retrato de dois casamentos, que passam por provações até atingirem seus destinos anunciados. Até agora, em suas adaptações, o diretor havia se mantido fiel às fontes literárias -- Jane Austen e Ian McEwan, respectivamente. Ao contrário, em “Anna Karenina” ele deixou o pudor de lado e mostrou-se bem mais criativo, até mesmo ousado.

O longa se passa, em boa parte, dentro de um teatro. No entanto, a movimentação de câmera e a montagem são capazes de transpor as barreiras que poderiam transformar o filme num teatro filmado. Pode, por um lado, soar como uma metáfora óbvia: a vida da alta sociedade não passa de uma encenação. Ao mesmo tempo, ao transpor as limitações técnicas e narrativas, o diretor é capaz de dar fôlego e espanar a poeira de um filme de época.

A ambição --bem-sucedida em boa parte-- encontra apenas alguma limitação em Keira Knightley, atriz especializada em filmes de época e fetiche do diretor, figurando no elenco de suas duas outras adaptações. Ainda assim, ela não compromete o resultado final, apesar de atravessar as pouco mais de duas horas de “Anna Karenina” com a mesma cara -- aquelas mesmas expressões faciais de quando fez Elizabeth Benneth, heroína do século 17 de “Orgulho e Preconceito”, e Cecilia Tallis, personagem do século 20 que protagoniza “Desejo e Reparação”.

Apesar de ser a personagem-título de “Anna Karenina”, a trama do longa está um tanto dissolvida, de modo que o peso da responsabilidade não recai sobre seus frágeis ombros. Anna, mulher casada com um homem mais velho, o conde Karenin (Jude Law), encontra o amor que faltava em sua vida nos braços de um oficial da cavalaria, o conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson).

Paralelamente, Levin (Domhnall Gleeson), um fazendeiro apaixonado pela mimada Kitty (Alicia Vikander), tenta conquistar o seu amor, mas ela, garota da cidade, não o vê com bons olhos.

FUNDO HISTÓRICO

A partir de uma trama quase banal de amor e traição, Tolstói traça um painel da Rússia czarista prestes a ruir.

O fundo histórico está sempre por de trás da trama ficcional, em sua grandiosidade e exageros visuais -- na direção de arte, fotografia e figurino, este ganhador do Oscar. É como se a aristocracia estivesse tão preocupada em representar para seus pares suas próprias convenções sociais que não percebesse as transformações que se aproximam.

Seguindo Tólstoi, o dramaturgo inglês Tom Stoppard, que assina o roteiro, constrói a trama em cima de pequenas antecipações. Logo no começo da história, Anna precisa ir de São Petersburgo a Moscou para ajudar a resolver uma crise no casamento do irmão Oblonsky (Matthew Macfadyen), que trai sua mulher, Dolly (Kelly Macdonald).

É um prenúncio do outro caso de infidelidade que se tornará o centro do drama. A maior pista de todas é o local onde Anna e Vronsky se conhecem: numa estação de trem.

Já Levin --um alter-ego do próprio Tolstói--, devotadamente apaixonado por Kitty, que se resigna a ficar sozinho quando ela o esnoba, tem projetos sociais e sua personalidade passa longe do individualismo dos outros personagens. Essas características encontram uma representação formal: nas cenas desse personagem, o longa deixa a claustrofobia do teatro e vai para o campo, a céu aberto.

É possível que os amantes mais puristas do romance original tenham reparos ao filme de Wright. Por outro lado, é irônico que uma das melhores adaptações de Tolstói se passe num teatro, pois o próprio Tolstói não gostava de teatro. Mas a força e beleza do filme materializam-se exatamente nisso. E não há nada mais belo do que uma corrida de cavalos que se passa em cima de um palco.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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