ESTREIA-Drama francês faz um jogo entre imaginação e realidade

quinta-feira, 28 de março de 2013 17:13 BRT
 

SÃO PAULO, 28 Mar (Reuters) - Não é mera coincidência que o lugar onde se passa boa parte da ação do drama "Dentro de Casa", do francês François Ozon ("Potiche - A Esposa-Troféu"), seja uma escola chamada Gustave Flaubert.

Uma das personagens centrais, Esther (Emmanuelle Seigner), é uma espécie de Madame Bovary contemporânea, burguesa e entediada em sua casa e que acaba despertando a paixão de um adolescente, Claude (Ernst Umhauer), amigo de seu filho. Uma situação, no entanto, que resulta em consequências bastante diferentes daquelas do romance clássico, publicado em 1857.

Sem saber, Esther é o objeto do desejo e protagonista de uma narrativa criada por Claude, na qual realidade e imaginação se misturam. Tudo começa com uma redação para a aula de francês, quando o professor Germain (Fabrice Luchini) nota que Claude tem um talento acima da média.

Na redação, o garoto descreve uma ida à cada do amigo Rapha (Bastien Ughetto), onde conhece o pai (Denis Ménochet) e a mãe, Esther. É um ambiente pequeno-burguês bastante diferente daquele no qual o garoto vive com o pai, preso a uma cadeira de rodas e abandonado pela mãe. O que seduz Claude não é apenas a atmosfera de uma vida financeiramente melhor do que a sua, mas a também ideia da família perfeita.

Aos poucos, cria-se uma estranha relação de interdependência entre o garoto e professor, que toda semana espera uma nova redação, uma nova aventura de Claude na casa dos Raphas, como ele os chama. Claude, por sua vez, aproxima-se cada vez mais de Esther, como se estivesse projetando um complexo de Édipo mal resolvido na mãe do amigo.

O professor também é um personagem interessante. Homem de meia-idade, é casado com Jeanne (Kristin Scott Thomas), gerente de uma galeria de arte à beira da falência, que expõe arte contemporânea. Entre as bizarras obras, estão bonecas eróticas infláveis com a imagem dos rostos de ditadores - como Hitler e Stalin - sobre suas faces.

Ao contrapor a narrativa romanceada das aventuras do garoto na casa do amigo e as estranhas obras da galeria, Ozon, que assina o roteiro baseado numa peça do espanhol Juan Mayorga, parece questionar os diversos níveis da representação. As histórias do garoto, com o passar do tempo, viram um jogo de espelhos, refletindo também os anseios do professor de manipular as ações do garoto.

Em seu último ato, "Dentro de Casa" perde um pouco de fôlego para o reencontrar apenas na reta final. O que funciona muito bem é o trabalho dos atores - especialmente do novato Ernst Umhauer, cujo risinho cínico no canto da boca tem um quê de Terence Stamp em "Teorema", de Pier Paolo Pasolini, um filme que, não por acaso, estabelece um diálogo com este.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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