ESTREIA- Documentário "Doméstica" investiga relação entre empregadas e patrões

quinta-feira, 2 de maio de 2013 11:28 BRT
 

SÃO PAULO, 2 Mai (Reuters) - Em um de seus ensaios mais importantes, "As Ideias Fora do Lugar", o crítico literário Roberto Schwarz, comentando o Brasil escravocrata da época de Machado de Assis, diz: "O favor é a nossa mediação quase universal -e (é) mais simpático do que o nexo escravista". Nesse mesmo texto, Schwarz comenta o paradoxo da importação das ideias europeias de liberalismo para uma sociedade escravocrata que aspirava a se desenvolver de forma capitalista.

Mais de 100 anos depois, não raro o favor continua sendo moeda de troca em nosso país. O que se vê no documentário "Doméstica", do pernambucano Gabriel Mascaro, é uma prova mais do que concreta dessa prática.

Realizado antes da "PEC das Domésticas", o longa explora um terreno brumoso de relações trabalhistas, sociais e culturais entre famílias empregadoras e empregadas em diversos cantos do país. O filme entra em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

O ponto de partida é simples: Mascaro deu uma câmera para sete adolescentes de diversas regiões e classes sociais para filmar o cotidiano de suas domésticas. O diretor não interferiu nessas filmagens, apenas pegou o material bruto e o montou.

É nesse processo de montagem, de organização das ideias criando uma narrativa, que o filme acontece. Uma vez que os próprios adolescentes estão inseridos no contexto em que filmam, é praticamente impossível haver um distanciamento e, consequentemente, um olhar minimamente crítico. Mas a relevância do filme vem exatamente daquilo que não é dito explicitamente e transpira nas entrelinhas.

Curiosamente, todas as famílias filmadas mantêm, ao menos nas aparências, uma relação bastante cordial -em alguns casos de amizade- com seus empregados.

Aí surge aquela famosa expressão que há muito parece ter-se tornado quase senso comum: "É como se fosse da família."

Frequentemente, a afirmação mascara a verdadeira natureza de relações trabalhistas que implicam na troca -trabalho e pagamento- e que devem reger, como em qualquer outro emprego, essa interação.

"Doméstica" ilustra bem, em seu estudo de casos, como acumular funções se torna uma prática quase imperceptível. A primeira das empregadas mostradas é filmada por um adolescente simpático.   Continuação...