June 6, 2013 / 4:28 PM / 4 years ago

ESTREIA-Nem Leonardo DiCaprio salva o vazio de "O Grande Gatsby"

3 Min, DE LEITURA

Diretor Baz Luhrmann posa para fotos no tapete vermelho da estreia australiana do filme "O Grande Gatsby" em Sydney, 22 de maio de 2013. Luhrmann nunca sai a campo se não for para tornar algo pop. Foi assim em "Romeu + Julieta" (1996), repaginando em batida rock a história dos amantes infelizes mais famosos da história. Ele repete a dose com sua nova versão de "O Grande Gatsby", associando-se novamente ao galã Leonardo DiCaprio, o ator número um da lista quando se trata de encarnar heróis românticos trágicos (basta lembrar "Titanic"). 22/05/2013Daniel Munoz

SÃO PAULO, 6 Jun (Reuters) - O cineasta australiano Baz Luhrmann nunca sai a campo se não for para tornar algo pop. Foi assim em "Romeu + Julieta" (1996), repaginando em batida rock a história dos amantes infelizes mais famosos da história. Ele repete a dose com sua nova versão de "O Grande Gatsby", associando-se novamente ao galã Leonardo DiCaprio, o ator número um da lista quando se trata de encarnar heróis românticos trágicos (basta lembrar "Titanic").

Contando ainda com dois outros ótimos atores, Tobey Maguire e Carey Mulligan, e os efeitos de espetáculo do 3D, o que poderia, então, dar errado nesta feérica retomada do romance escrito em 1925 por F. Scott Fitzgerald, já filmado quase 30 anos atrás pelo inglês Jack Clayton?

A verdade é que, apesar do inegável empenho do trio central de atores, alguma coisa pesa sobre eles, como a maldição que, finalmente, engole Jay Gabsby (DiCaprio), Daisy Buchanan (Carey) e Nick Carraway (Maguire). Nada disso vem da história original, mas dessa postura espalhafatosa do próprio Luhrmann - que serve até bem às cenas de festas e danças, mas termina por se apoderar de todo o drama em si, perdendo o foco. Na versão 3D, esse vazio luxuoso fica ainda mais evidente.

Luhrmann empenhou-se muito em trazer a história para a atualidade por todas as formas que lhe pareceram compatíveis, especialmente a música. Assim, como acontecia com "Maria Antonieta", de Sofia Coppola, misturam-se na trilha os contemporâneos Beyoncé, Bryan Ferry, André 3000, o jazz dos anos 1920 e os irmãos George e Ira Gershwin. Nenhum problema, afinal, não é isso que contamina o filme, mas sua vasta coleção de excessos que termina por vampirizar o romance impossível de Gatsby e Daisy, artificializando-o como um produto enfeitado demais numa vitrine de shopping center.

Para quem assistiu ao sóbrio e requintado filme de 1974 (estrelado por Robert Redford e uma Mia Farrow que era, certamente, bem menos interessante do que Carey Mulligan), alguns cenários são mostrados com mais detalhes. É o caso do "Vale das cinzas", bairro operário dos arredores de Nova York, transformado num verdadeiro paradigma de uma Revolução Industrial já fora de época e que retrata a brutalização do ambiente pelas condições desumanas do trabalho das classes menos favorecidas.

O contraste entre este mundo deprimente e as esfuziantes festas da mansão Gatsby - um milionário novo-rico com obscuras ligações no submundo, mas internamente consumido por uma obsessão romântica por uma mulher casada e frágil - pretende formular um comentário sobre a crise econômica e a irresponsabilidade dos muito ricos. Mas a moldura em que isto e tudo o mais é inserido, finalmente, desaba. "O Grande Gatsby", o filme, não passa de uma casca, colorida, brilhante, mas que não oculta nenhuma substância autêntica por trás.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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