27 de Junho de 2013 / às 17:09 / 4 anos atrás

ESTREIA-"A Espuma dos Dias" materializa história de fadas adulta

SÃO PAULO, 27 Jun (Reuters) - Curta foi a vida, mas longa a lenda de Boris Vian (1920-1959), engenheiro, poeta, compositor, romancista e músico francês, cuja aura criativa é periodicamente retomada.

Como acontece agora com a adaptação de um de seus mais célebres romances, "A Espuma dos Dias", por seu compatriota Michel Gondry, que entra em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Além da nacionalidade, Gondry compartilha com Vian os pés em dois mundos, a França e os EUA, país em que o cineasta alcançou alguns de seus maiores sucessos, especialmente ao lado de Charlie Kaufman, com quem dividiu em 2005 o Oscar de roteiro original por "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", dirigido por Gondry.

Vian, por sua vez, era trompetista e adorava o jazz, que mais de uma vez dá o tom em situações de "A Espuma dos Dias", que tem na trilha sonora, assinada por Etienne Charry, canções adicionais de Duke Ellington, além de toques pop, com Paul McCartney, Ray Shanklin e Mia Doi Todd.

Publicado pela primeira vez em 1946, e recebendo agora uma nova tradução brasileira, lançada pela Cosac Naify, "A Espuma dos Dias" oferece terreno fértil ao estilo fantástico de Gondry, que consegue traduzir na tela um universo mágico, melancólico e romântico. Esta é a segunda versão cinematográfica do romance, a primeira foi em 1968, de Charles Belmont.

Num universo colorido e surreal, torna-se natural, desde as primeiras cenas, ver alguém aparando as pálpebras que crescem demais, um rato dividindo um apartamento amigavelmente com seres humanos, enguias vivendo numa torneira de cozinha antes de virarem o jantar, sapatos que se soltam dos pés e voltam ao seu dono e uma misteriosa flor, capaz de continuar crescendo no pulmão de alguém.

O protagonista é Colin (Romain Duris), jovem rico e ocioso, que passa seus dias despreocupado à procura de companhia. Sua casa é uma coleção de móveis e traquitanas complexas, como um curioso piano que prepara automaticamente coquetéis com diferentes misturas, dependendo da intensidade e modulações de quem o toca.

Na casa, suas companhias são um rato (Sacha Bourdo), cujos aposentos reproduzem em miniatura os do dono, e Nicolas (Omar Sy, "Os Intocáveis"), um cozinheiro de mão cheia, que também funciona como advogado e conselheiro sentimental.

O melhor amigo de Colin é Chick (Gad Elmaleh), um engenheiro obcecado pelo filósofo Jean-Sol Partre (Philippe Torreton) -- uma ironia evidente com Jean-Paul Sartre, o criador do existencialismo, cuja mulher, Simone de Beauvoir, aqui é rebatizada como a duquesa de Bouvouard (Marina Rosenman).

MOMENTOS ALEGRES, E SOMBRIOS

A história começa em clima cálido, como o verão e a juventude. Chick se envolveu com a bela Alise (Aissa Maiga), sobrinha de Nicolas, e agora se esforça para que Colin também encontre sua alma gêmea.

Numa festa de aniversário do cachorrinho da amiga Isis (Charlotte Lebon), ele conhece Chloé (Audrey Tautou), nome que evoca uma composição de Duke Ellington. Parece um bom sinal, mas o início do romance é bem truncado.

Nos dias que seguem, o envolvimento entre os dois embala em momentos mágicos, como quando são alçados numa espécie de nuvem nos céus de Paris e circulam nas ruas da cidade numa limusine de acrílico, totalmente transparente, também conduzida pelo fiel Nicolas.

Depois de um início alegre, ambos os casais experimentam momentos mais sombrios. É visível a mudança das cores, materializando esta alteração dos estados de espírito, o que é feito de maneira nada óbvia pelo designer de cenários Stéphane Rosenbaum (que trabalhou com Gondry em filme anterior, "Sonhando Acordado") e o diretor de arte Pierre Renson.

Rosenbaum e Renson são os responsáveis, aliás, pela criação desta atmosfera um tanto onírica, em que a época permanece indefinida, incorporando toques retrô e também futuristas, tudo isso a serviço de uma história que certamente pede a cumplicidade do espectador. Dado o clima surreal, seria muito fácil cair-se na mera bizarrice. Mas não é o que acontece.

Amparado num roteiro ágil, do também produtor Luc Bossi, fiel ao livro original mas se permitindo alguns voos compatíveis, e em atores que investem seus personagens de uma humanidade às vezes pungente, às vezes divertida, "A Espuma dos Dias" incorpora-se na boa linhagem de alguns filmes ternos e fantásticos franceses -- caso de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", uma semelhança que a presença de Audrey Tautou reforça, aqui numa chave mais adulta e trágica.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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