ESTREIA-"Hannah Arendt" focaliza polêmicas da célebre pensadora alemã

quinta-feira, 4 de julho de 2013 09:04 BRT
 

SÃO PAULO, 4 Jul (Reuters) - Uma das diretoras mais prestigiadas do Novo Cinema Alemão, pertencente à mesma geração que revelou Wim Wenders e Volker Schlondorff, Margarethe Von Trotta compõe um admirável perfil de uma personalidade e de uma época no drama Hannah Arendt. O filme estreia em São Paulo.

Aliando-se, mais uma vez, a Barbara Sukowa, intérprete habitual de seus filmes, como os premiados "Rosa Luxemburgo" (86) e "Os Anos de Chumbo" (81), a cineasta entrega-se ao desafio de retratar uma das pensadoras políticas mais importantes e influentes do século 20, autora de clássicos como "As Origens do Totalitarismo".

Escapando ao risco de comprometer a narrativa com um excesso de teorias, escolhe como foco um episódio crucial na vida de Hannah. Em 1961, a filósofa alemã, já radicada nos EUA, viaja a Israel para acompanhar um dos julgamentos mais bombásticos de todos os tempos, do carrasco nazista Adolf Eichmann, capturado pelo serviço secreto israelense na Argentina.

Partindo de uma peça da norte-americana Pam Katz, corroteirista do filme ao lado de Von Trotta, a história humaniza por todos sua protagonista, sem banalizar seu pensamento nem sua atividade. Hannah é vista discutindo com seus alunos na universidade, e também com seus amigos intelectuais, em concorridas festas em seu apartamento, em que, ao lado de temas polêmicos, nunca faltavam piadas, nem bebida ou cigarros.

O nazismo está no centro das discussões.

Primeiro, na atuação de Hannah, ao cobrir o julgamento de Eichmann para a revista "The New Yorker", que lhe permitiu criar uma das teses mais polêmicas de toda a sua obra, sobre a "banalidade do mal".

O segundo, menos abordado no filme, lembra seu relacionamento com o mestre e ex-amante Martin Heidegger (Klaus Pohl), filósofo que se filiou ao Partido Nazista em 1933 e nunca se retratou da atitude após o fim da Segunda Guerra - para desgosto de Hannah, que era judia alemã e fugiu do país natal após a ascensão de Hitler ao poder.

Enxergando em Eichmann apenas um burocrata medíocre, cumpridor cego de ordens, recusando-se a ver um monstro de índole diabólica, e não se omitindo em apontar o que considerava como cumplicidade dos chamados Conselhos Judaicos na destruição de sua própria comunidade, Hannah atraiu a fúria dos próprios amigos e dos círculos judaicos. Muitos nunca a perdoaram pela ousadia. Para eles, ela estaria "defendendo" o carrasco, o que sempre negou.

Nada disso abalou a filósofa, que publicou seus artigos na "The New Yorker" - onde também sofreu pressões - e, dois anos depois, um livro que teve grande repercussão, "Eichmann em Jerusalém".   Continuação...