ESTREIA-"A Cidade É Uma Só?" investiga passado de Brasília para falar do presente

quinta-feira, 11 de julho de 2013 15:34 BRT
 

SÃO PAULO, 11 Jul (Reuters) - O nome da cidade-satélite Ceilândia deriva de CEI - Campanha de Erradicação de Invasões, que, no começo dos anos de 1970, tentava disfarçar a remoção violenta de cerca de 80 mil pessoas do lugar onde hoje é o Guará e parte do Park Way para um local a 40 km do Plano Piloto, em Brasília. Premiado no Festival de Tiradentes de 2012, "A Cidade É Uma Só?" combina documentário e ficção para recontar memórias de pessoas que foram obrigadas a deixar suas casas e os reflexos disso nos dias atuais. O filme estreia em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.

Dirigido por Adirley Queirós, o filme elege como personagens Nancy Araújo, que era moradora da região, Zé Antônio, que vende terrenos, e seu cunhado, Dildu, faxineiro da Ceilândia, candidato na eleição distrital pelo PCN - Partido da Correria Nacional. Seu jingle pegajoso ("Vamô votá, votá legal, 77223 pra Distrital. Dildu!") é criado por seu marqueteiro, que o define como "agradável, legal e gângster". O longa transita nesse cruzamento de passado e presente, mapeando as diferenças sociais que marcam Brasília, e, claro, também o resto do país.

Nancy foi quase uma garota-propaganda do processo de remoção ocorrido há mais de 40 anos. Ainda criança, ao lado de outras meninas, participou da campanha, na qual elas cantaram uma musiquinha em que um dos versos dizia: "A cidade é uma só". Era essa a ideia que tentava ser vendida, por isso, ela nunca conseguiu esquecer a música.

O filme recria o ambiente em que se deu essa gravação - com direito a uniforme escolar bastante parecido, segundo as instruções de Nancy. Zé Antônio, por sua vez, aponta para as contradições da especulação imobiliária numa cidade que, como ele mesmo diz, não tem para onde crescer.

Deste trio, apenas, Nancy não está representando, mas contando sua própria história. Os outros dois são representações, mas que bem poderiam ser reais. Queirós articula esses elementos, assim como as linguagens do documentário e da ficção, levantando uma discussão importante sobre a ocupação urbana.

A interrogação no final do título não fazia parte da frase original - da música da campanha de 1971 -, mas eficientemente questiona a ideia que os governantes tentavam vender na época. Hoje, vemos que a capital do país jamais poderá ser uma só enquanto houver uma discrepância social tão gritante.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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