ESTREIA-"A Voz Adormecida" recupera histórias de mulheres após Guerra Civil Espanhola

quinta-feira, 11 de julho de 2013 16:12 BRT
 

SÃO PAULO, 11 Jul (Reuters) - Episódio crucial da história da Espanha, a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) é, novamente, o pano de fundo de um drama, "A Voz Adormecida", de Benito Zambrano. Adaptando romance de Dulce Chacón (1954-2003), o diretor espanhol percorre um viés menos explorado de um imediato pós-guerra, focalizando o duro cotidiano das detentas da prisão madrilenha de Ventas, em 1940. O filme estreia em São Paulo.

A vida das prisioneiras naquele lugar é um eterno compasso da espera mais tétrica. A cada noite, pode acontecer a chamada para integrar os frequentes pelotões de fuzilamento que se sucedem no pátio ao lado. A maioria das presas é analfabeta e ainda não foi submetida a qualquer julgamento, vivendo amontoadas em precárias condições de saúde e alimentação.

A história de duas irmãs de Córdoba, Hortensia (Inma Cuesta, de "Branca de Neve") e Pepita (María León), conduz o enredo. Militante engajada da esquerda esmagada pelo general Francisco Franco, Hortensia, que está grávida, tenta manter a fibra. Sem convicções políticas e presa apenas pela ligação familiar, Pepita é um retrato de ingenuidade, mas também de lealdade a toda prova.

Libertada, Pepita vai trabalhar como doméstica na casa de um médico (Jesús Noguero), que, por recusar-se a jurar fidelidade ao regime, teve que abrir mão da profissão, tornando-se contador. A situação contraria seu pai, militar, seu irmão, falangista convicto, além da própria mulher - que detesta os esquerdistas, que mataram seus dois irmãos na guerra.

Contrapondo estes contrastes, o filme de Zambrano tece com segurança o contexto de um país dilacerado para desenvolver um melodrama de forte cunho político, mas que se estrutura na personalização dos conflitos em personagens-chave. Elabora, assim, uma inegável simpatia para Pepita - que, apesar de seu descompromisso ideológico, não se furta a fazer arriscados contatos com o cunhado, Felipe (Daniel Holguín), que está na clandestinidade, mantendo viva a chama de uma resistência antifranquista, àquela altura despedaçada.

Pepita expõe-se a cada vez mais riscos na medida em que se envolve com outro militante, Paulino (Marc Clotet). Enquanto isso, dentro da cadeia, segue o clima de terror, sucedendo-se as execuções. Hortensia preocupa-se agora não só com a própria vida, com a qual não pode contar muito, mas em garantir que seu bebê, quando nasça, seja entregue à irmã e não a um orfanato, destino comum a muitos filhos dos inimigos do governo.

Retratando com calor o obscurantismo do período, Zambrano não se furta a expor a decisiva participação da Igreja Católica como braço auxiliar dos desmandos do regime. As freiras dentro da prisão são, por vezes, mais violentas do que as carcereiras.

Injetando emoção em alta voltagem, mas sem exagero, o diretor cria um filme com que o público pode verdadeiramente se identificar. Sobretudo a partir de atuações poderosas, como a de María León, premiada com um Goya de atriz revelação em 2012 por sua empenhada interpretação de Pepita. Outros dois Goyas foram atribuídos à melhor canção ("Nana de la Hierbabuena", de Carmem Agredano) e à atriz coadjuvante Ana Wagener.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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