ESTREIA-"Aconteceu em Saint-Tropez" traça retrato corrosivo da família

quinta-feira, 29 de agosto de 2013 16:05 BRT
 

SÃO PAULO, 29 Ago (Reuters) - O grande chamariz de público da comédia dramática "Aconteceu em Saint-Tropez" será, certamente, a presença da atriz italiana Monica Bellucci - num papel, aliás, em que ela demonstra uma veia de auto-ironia poucas vezes experimentada por ela antes.

Mas o foco da história, dirigida e corroteirizada pela francesa Danièle Thompson (de "Um Lugar na Plateia"), é um painel, não raro corrosivo, do comportamento de uma família judia, num momento crucial em que organiza um casamento e um funeral.

O casamento é de Melita (Clara Ponsot), a filha de Roni (Kad Merad), um empresário rico, bom vivant e esbanjador, casado com a italiana Giovanna (Monica Bellucci), linda, fútil e burra - detalhes que são impiedosamente jogados em sua cara pelo cunhado Zef (Eric Elmosnino).

Com uma linha totalmente oposta ao irmão, Zef é um judeu religioso, casado com a não menos devota Esther (Valérie Bonneton), ambos músicos clássicos, pais de Noga (Lou de Laâge). Por conta das diferenças entre as duas famílias, eles já haviam decidido não ir ao casamento da sobrinha. O imprevisto é a morte repentina de Esther.

Fazendo humor negro já desde essa primeira situação, colocam-se sob o mesmo teto, a casa de Roni, a festa de casamento e, escondido numa sala, o corpo de Esther - que, por problema burocrático, não chegou a tempo do sepultamento que, agora por impedimento religioso, não pode ocorrer no sábado.

O absurdo desta convivência, além das mentiras que se amontoam ao longo do caminho, é o grande desafio daquilo que se pretende como uma comédia de costumes disposta a escancarar contradições e hipocrisias. Assim como a trama paralela que uniu num trem, por coincidência, Noga e Max (Max Boublil), o para ela desconhecido noivo da prima, que é sua melhor amiga.

Danièle Thompson consegue extrair boa carga irônica do choque entre os irmãos Roni e Zef, abrindo entre eles uma adorável brecha afetuosa no pai idoso, o patriarca Aron (o violonista israelense Ivry Gitlis) - que sofre de Alzheimer, diz o que quer e faz o que lhe dá na telha.

O imbróglio romântico envolvendo Noga e o noivo da prima funciona só até certo ponto, mas é fundamental para que se desenvolva o terço final da história, que reserva um par de surpresas.

Se o ritmo do filme não é sempre o melhor, até por conta de tantas nuances, não se pode negar o esforço de ir adiante em sua composição, contando com atores de grande competência - embora os mais jovens sejam visivelmente menos experientes em comédia.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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