ESTREIA-"Lovelace" tenta desconstruir o mito da protagonista de "Garganta Profunda"

quinta-feira, 12 de setembro de 2013 13:17 BRT
 

SÃO PAULO, 12 Set (Reuters) - "Lovelace", filme sobre a ascensão e queda de Linda Lovelace - estrela de "Garganta Profunda"-, retrata uma época da inocência, um tempo em que os filmes pornográficos eram vistos no cinema, e as estrelas do gênero tinham cara de pessoas comuns. É também sobre o conflito entre o público e o privado, materializado na percepção da trajetória da protagonista, nascida Linda Boreman, cuja vida e carreira foram destruídas por seu marido abusivo, Chuck Traynor.

Hoje, com a pornografia facilmente acessível pela web, talvez seja mais difícil compreender o impacto cultural de um filme como "Garganta Profunda", lançado em 1972, ainda no calor da revolução sexual do final da década anterior.

Linda (interpretada por Amanda Seyfried) se tornou uma espécie de ‘poster girl' da época -a mulher que faz o que quer e como quer. Esse era o lado público: a garota reprimida pela mãe beata que entra na indústria pornográfica sem saber onde pisa e se torna a estrela desejada e invejada.

A primeira parte do filme, dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, é sobre isso: a construção de um mito. Vemos a imagem pública de Linda, as filmagens do único filme pornográfico que fez na vida e pelo qual ficou para sempre estigmatizada. Exatamente em sua metade "Lovelace" começa a desconstruir o mito, com flashbacks cobrindo lacunas da narrativa de até então - especialmente os abusos físicos do marido (Peter Sarsgaard).

Ao se concentrar nas vidas privada e pública de Linda, os diretores deixam de lado o momento sócio-histórico e cultural que permitiu o sucesso de "Garganta Profunda".

Há a famosa história que resultou na renúncia de Richard Nixon, na qual o informante assumiu o apelido de Garganta Profunda -episódio retratado no filme "Todos os Homens do Presidente". O que fica, na verdade, é apenas a vitimização de Linda que, mais tarde, se casou, teve um filho e se tornou uma ativista antipornografia -isso, porém, é apenas mencionado.

Os diretores parecem mais confortáveis ao evitar conflitos e preferem apenas registrar momentos. As cenas envolvendo as filmagens de "Garganta Profunda", sob a direção de Gerard Damiano (Hank Azaria), sob a produção de Butch Peraino (Bobby Cannavale) e Anthony Romano (Chris Noth), são algumas das melhores do filme.

E Amanda Seyfried, que até então parece não ter dito a que veio (ou nunca teve um papel minimamente bom), cria uma Linda Lovelace que mantém a mesma fragilidade de Linda Boreman, e nunca se deixa encantar pelo sucesso.

Ao deixar de fora os últimos anos da vida de Linda -que morreu em 2002 depois de um acidente de automóvel- "Lovelace" ameniza as contradições humanas da sua personagem. Alivia o retrato que faz do universo pornô. Tenta ter um quê de "Boogie Nights", mas passa longe, e beira apenas o banal, mesmo tendo assunto que é nitroglicerina pura.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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