ESTREIA-"Anos Incríveis" narra experiência de canal de TV pirata francês

quinta-feira, 19 de setembro de 2013 16:34 BRT
 

SÃO PAULO, 19 Set (Reuters) - O passado pode iluminar o presente - ou, ao menos, colocá-lo em perspectiva crítica. O cinema também. O francês "Anos Incríveis" aborda uma experiência televisiva dos anos de 1990, da qual o diretor e corroteirista do filme, Michel Leclerc ("Os nomes do amor") fizeram parte.

Sem qualquer tipo de vínculo com qualquer sistema, o canal Télé Bocal - que no filme ganha o nome de Télé Gaucho - entrou no ar de forma pirata. Seu conteúdo era anárquico e contestador. Seus membros não ganhavam por seu trabalho, viviam uma experiência comunitária. Algo parecido, mas não igual, ao Mídia Ninja/Fora do Eixo, tão em evidência no Brasil atual.

Leclerc - que assina o roteiro com Thomas Lilti - coloca seu alter-ego, Victor (Félix Moati), em primeiro plano e narra a história a partir do seu ponto de vista. Moço do interior, ele consegue um estágio num famoso programa, comandado por Patricia Gabriel (Emmanuelle Béart), Pat Gab, para os mais próximos, reacionária convicta, em cujo televisivo não se acanha em mostrar o que pensa - para desespero de Victor, cuja mente criativa encontra ressonância nos colegas da Télé Gaucho.

Jean-Lou (Eric Elmosnino) e Yasmina (Maïwenn) podem ser os líderes informais, pois lá dentro todos têm o mesmo peso. As funções são democraticamente divididas - para que não haja rupturas, como as indiretas para um membro que mora num bairro nobre e ainda é dependente dos pais. Victor, em sua ingenuidade, amadurece cercado por essas pessoas, mas aparentemente não o suficiente.

É especialmente nele que se encerram as contradições e incertezas do grupo, cujos programas, num primeiro momento, são exibidos em vários aparelhos de tevê espalhados na própria sede durante festas. Quando finalmente conseguem colocar uma antena no topo de um prédio, tornam-se um canal pirata. Sem abandonar o emprego na emissora legal, Victor faz jornada dupla, rouba fitas e outras coisas dos patrões ricos para ajudar os amigos pobres. Tudo isso, sem que seus pais saibam.

Victor conhece Clara (Sara Forestier, uma presença iluminada no filme), jovem atrapalhada, mas de bom coração, que entra para o coletivo e logo fica grávida dele. Clara é responsável por alguns dos momentos mais engraçados - como quando vai filmar a implosão de um prédio. "Eu gosto de fazer as coisas certas, elas é que não gostam de ser feitas por mim", é a triste conclusão a que chega.

"Anos Incríveis" se estrutura na forma de uma crônica, observada e narrada por Victor, e traz para si a mesma experiência pós-hippie utópica da Télé Bocal. Nesse sentido, o filme é um devaneio de pessoas que sonham com um mundo melhor, mas nem sempre conseguem atingir esse objetivo. Elas erram, mas, ao menos, erram tentando.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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