ESTREIA-"Os Filhos da Meia-Noite" faz adaptação fraca de romance de Salman Rushdie

quinta-feira, 21 de novembro de 2013 14:17 BRST
 

SÃO PAULO, 21 Nov (Reuters) - O premiado romance homônimo de Salman Rushdie, "Os Filhos da Meia-Noite", representa um grande desafio para ser transformado num filme. Com mais de 500 páginas e algumas dezenas de personagens, esse é um livro que requer uma leitura atenta e algum conhecimento sobre a história da Índia.

Um dos maiores exemplos de literatura colonial, o romance usa fatos reais -como a independência do país, em 1947- combinados com narrativa ficcional embalada num realismo mágico, algo que raramente funciona no cinema. O longa estreia em São Paulo, Rio e Brasília.

Dirigido pela indiana Deepa Mehta, a partir de um roteiro do romancista -que fornece sua voz como narrador-, o longa resulta numa minissérie condensada e apressada sem tempo para que os eventos se desenvolvam de forma orgânica. Para compreender o romance, apêndices, que incluem mapas e árvores genealógicas, são necessários. Na tela, Deepa reduz tudo aos quiproquós de uma telenovela, com uma narração solene e reverente.

"Eu nasci em Bombaim, era uma vez. No dia em que a Índia conseguiu sua independência. Meu destino, ligado ao do país", começa a narração.

Em tom de fábula sombria, esse é o ponto de partida do monólogo de Saleem (Satya Bhabha), que conta a história de sua família a sua futura esposa. Esse prólogo traz fatos que o próprio personagem não poderia ainda conhecer, pois seu nascimento se dá lá pelos 30 minutos de filme. É o tipo de recurso que funciona melhor nas páginas de um romance do que na tela.

No momento de seu nascimento, uma enfermeira (Seema Biswas) o troca por outro bebê, e dá a chance a uma criança pobre de ser criada por uma família rica. Por conta da hora do seu nascimento - meia-noite -, Saleem tem poderes paranormais. Não apenas ele, mas também as outras 581 crianças nascidas no mesmo momento.

É uma espécie de esquadrão de X-Men indiano, que, embora se mantenham algumas tintas políticas do romance, na tela é apenas mais um exotismo, entre tantos outros.

Deixando boa parte da intersecção do privado com o histórico de lado, a diretora se concentra no lado emocional da trama. Entretanto, os personagens são rasos, funcionando apenas em função de uma manipulação emocional, destituindo-os de qualquer espécie de vida privada.

Os valores de produção, como direção de arte, fotografia, figurinos, trilha sonora etc, apenas salientam o exotismo da Índia, num filme sob medida para agradar a plateias movidas pela curiosidade sobre lugares distantes, mesmo sem um pingo de autenticidade.   Continuação...