ESTREIA-Bertolucci volta ao cinema com drama adolescente "Eu e Você"

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013 12:03 BRST
 

SÃO PAULO, 19 Dez (Reuters) - Afastado do cinema desde 2003, quando realizou "Os Sonhadores", por conta de sérios problemas de coluna -que lhe custaram ficar paraplégico-, o premiado cineasta italiano Bernardo Bertolucci voltou finalmente a filmar, entregando em "Eu e Você", um drama adolescente bem contemporâneo, adaptando com liberdade o romance de Niccolò Ammaniti.

É um retorno cauteloso, em que se sente que Bertolucci procura um diálogo com o público, no que foi bem-sucedido, já que o filme teve sucesso nos cinemas italianos no ano passado.

O diretor continua interessado em pulsões juvenis, aqui confrontando dois meio-irmãos, Lorenzo (o estreante Jacopo Olmo Antinori) e Olivia (Tea Falco). Os dois são filhos do mesmo pai, mas mal se veem, devido ao conflito insolúvel entre suas mães.

Lorenzo e Olivia acabam convivendo estreitamente por alguns dias, quando o garoto se esconde no porão do próprio prédio, mentindo para a mãe sobre ter ido a uma excursão da escola. Preparado para desfrutar de alguns dias de solidão, com surpresa recebe a visita da irmã, que sofre de aguda dependência química e tenta isolar-se de seus problemas.

Tendo como cenário praticamente único este porão e focando nos dois personagens, o diretor cria climas, expectativas. Parece que nada vai acontecer, em alguns momentos. Em outros, a fronteira de uma tragédia se avizinha, especialmente quando se agrava a crise de abstinência de Olivia.

Dessa maneira, Bertolucci mantém os espectadores ligados no destino dos dois irmãos. Se é verdade que se trata de uma pequena história, está encharcada de grandes questões.

O diretor, de 73 anos, claramente se interroga sobre quem são estes jovens de hoje, retratando com interesse afetuoso sua ligação estreita com a tecnologia e a fixação em drogas, diferentes mas também de algum modo semelhantes aos mais politizados protagonistas de "Os Sonhadores", ambientado em 1968.

Os dois jovens atores, por sua vez, entram nos seus papeis com muita energia, servindo à história com uma verdade que também é a deles próprios.

Ainda que enxergando qualidades no filme, que bem pode servir como metáfora a uma Itália isolada em si mesma, pode-se, afinal, conceder que não é o melhor Bertolucci de todos os tempos. Mesmo assim, o novo trabalho também não desmerece a biografia do veterano diretor, que carrega na bagagem obras como "1900" (1998), "O Último Imperador" (vencedor de nove Oscar em 1988) e "O Conformista" (1970).   Continuação...