ESTREIA- Veteranos Stallone e De Niro garantem charme de "Ajuste de Contas"

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014 14:40 BRST
 

SÃO PAULO, 9 Jan (Reuters) - No mundo das artes, um sentimento de nostalgia é comum no público, que se sente órfão de escritores, séries, sagas e personagens antigos. Por outro lado, produtores e afins costumam se aproveitar justamente disso para lançar novos produtos, reavivando a memória dessas obras passadas.

"Ajuste de Contas", de Peter Segal, pertence a essa categoria ao evocar na telona dois dos boxeadores mais famosos do mundo do cinema: Rocky Balboa, o Garanhão Italiano, e Jake LaMotta, o Touro Indomável.

Não, Sylvester Stallone não tentou ressuscitar mais uma vez o personagem que criou em "Rocky - Um Lutador" (1976), de John G. Avildsen - e reapareceu nos outros cinco filmes da hexalogia -, nem Robert De Niro quis interpretar novamente o lendário lutador ao qual deu vida em "Touro Indomável" (1980), de Martin Scorsese. Agora eles são Henry ‘Razor' Sharp e Billy ‘The Kid' McDonnen, respectivamente, nesta comédia sobre dois antigos rivais do boxe.

Os boxeadores de Pittsburgh se enfrentaram duas vezes, com uma vitória para The Kid no primeiro embate e outra para Razor no segundo. Às vésperas de mais um confronto, a revanche foi adiada quando o desafiado Sharp, no auge da sua carreira, resolveu se aposentar e se tornou operário em uma fábrica. Trinta anos depois, o desafiante Billy vive da fama que conseguiu para atrair clientes ao seu bar, mas ainda alimenta a dúvida sobre quem seria o melhor entre eles.

Passadas três décadas, ele tem a chance de esclarecer essa questão, quando, após os rivais se reencontrarem na produção de um videogame de boxe e protagonizarem uma briga que se torna um viral na Internet, a tão esperada revanche dos dois pugilistas é marcada, o ajuste de contas do título. Obviamente, a idade avançada de ambos é aproveitada massivamente nas piadas do filme. Além do exagero do "humor maduro", as referências aos clássicos "Rocky - Um Lutador" e "Touro Indomável", que por si só seriam reavivados na memória dos espectadores com esta história, são incessantes.

Assim como Rocky Balboa tinha a figura de um treinador mais velho em Mickey (Burgess Meredith), Razor tem Louis ‘Lightning' Conlon (Alan Arkin), que o faz comer ovos crus, mas brinca com o uso de carnes do frigorífico no treinamento, em duas claras citações ao longa de 1976, roteirizado e estrelado por Stallone. Enquanto isso, The Kid, tal qual Jake LaMotta, possui uma personalidade difícil, apresenta dificuldade em lidar com o seu peso e faz shows cômicos, só que em seu próprio bar, bem diferente do destino que o outro pugilista do Bronx teve na vida real e na ficção. Além disso, o pretexto do provável duelo virtual em videogame motivar uma luta real já foi usado no próprio "Rocky Balboa" (2006), sexto e último filme da saga do boxeador da Filadélfia.

Sylvester e Robert já se confrontaram no Oscar de 1977, quando ambos concorriam na categoria de Melhor Ator, o primeiro por "Rocky..." e o segundo por "Taxi Driver" (1976) -também de Martin Scorsese- e foram vencidos por Peter Finch, que ganhou o prêmio póstumo por "Rede de Intrigas" (1976). Porém, a atuação deles, neste caso, apenas lembra, de longe, a daquele tempo. Enquanto De Niro e Stallone - assim como Kim Basinger, que interpreta Sally, a mulher que provoca outra disputa entre os dois - estão abaixo do esperado, o destaque vai para outra dupla.

Sobressaem-se Alan Arkin, como o treinador linha-dura, e Kevin Hart, na pele de Dante Slate Jr., aspirante a empresário do mundo do boxe, tentando trilhar o caminho do pai para sair da pobreza. Igual a uma luta de boxe, em que os lutadores sobem e caem de produção no decorrer dos rounds, "Ajuste de Contas" também oscila seu ritmo e seus melhores momentos são aqueles em que os dois estão juntos na tela.

O fato de o atrativo maior estar nas interpretações dos atores principais justifica-se também pelo fraco roteiro de Tim Kelleher e Rodney Rothman, uma dupla vinda da TV, e na direção de Peter Segal, conhecido por comédias como "Agente 86" (2008) e "Como Se Fosse a Primeira Vez" (2004), que não consegue honrar as duas figuras lendárias do cinema que pretende homenagear.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

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