ESTREIA-Premiado "Gloria" faz retrato intimista do Chile contemporâneo

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014 13:54 BRST
 

SÃO PAULO, 30 Jan (Reuters) - Gloria é uma mulher feliz. Às vezes fica triste pela manhã, às vezes, à tarde. É assim que a protagonista do drama chileno "Gloria" se define quando perguntada se está sempre contente.

Dirigido por Sebastián Lelio e coescrito por ele e Gonzalo Maza, o longa é uma crônica da vida dessa mulher de classe média alta, moradora de Santiago, que gosta de cantar junto com as músicas do rádio e também de sair para dançar.

Vivida com sensibilidade e sagacidade por Paulina García - premiada no Festival de Berlim do ano passado por esse trabalho -, a personagem não parece estar à procura de um homem para chamar de seu.

Mas também não descarta essa possibilidade quando surge na figura de Rodolfo (Sergio Hernández), oficial da Marinha reformado e recém-divorciado, a quem as filhas adultas não dão sossego.

Gloria e Rodolfo começam um relacionamento, saem para jantar, conversam, passam a noite juntos, ele a leva ao seu parque de diversões e se divertem. Tudo estaria indo muito bem, não fosse a família dele, que insiste em telefonar nos momentos mais inoportunos, levando-o a deixar sua nova namorada sem qualquer explicação.

É a partir dos pequenos fatos da vida, das dinâmicas simples do dia-a-dia que Lelio e Paulina constroem o retrato desse casal.

Sem aspirar a uma grande epifania, o diretor e a atriz exploram os pequenos fatos - mais comuns que os grandes - na vida da personagem. Acompanhamos Gloria em suas tarefas, no trabalho, no cabeleireiro, no encontro com amigos, onde cantam "Águas de Março", na reunião de aniversário do filho. E quando conhecemos o ex-marido da protagonista, constatando que escolher seus companheiros nunca foi seu forte.

Gloria foi uma pessoa que amadureceu na época da ditadura de Augusto Pinochet no Chile (1973-1990), mas isso nunca é dito no filme. Mesmo sem jamais usar a palavra "ditadura", este é um filme, de certo modo, político.

Não sabemos o que a protagonista fez nessa época - se foi opositora, apoiadora, conformista ou apenas tentava sobreviver - mas o que importa é o presente. Nesse sentido, o longa faz um retrato do país no nosso tempo, dos chilenos em busca de lidar com o passado. O fato de o interesse romântico da protagonista ser um militar não é por acaso. É a sociedade civil encarando de frente suas cicatrizes do passado, que, envergonhada, abaixa a cabeça antes de sair despercebida da mesa sem pagar a conta.   Continuação...